sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Cinco Discos Para Conhecer: A Obra O Pedro E O Lobo




Em 1936, o compositor russo  Sergei Prokofiev, com o objetivo de ensinar às crianças as diferentes sonoridades dos instrumentos de uma orquestra, criou uma peça teatral chamada O Pedro e o Lobo.
Essa peça, de aproximadamente 25 minutos, tornou-se essencial e clássica no mundo da música, servindo de formação musical para uma infinidade de artistas consagrados. Muitos deles, como forma a homenagear a historinha, decidiram gravar as suas versões de O Pedro e o Lobo, e nesse artigo, vou trazer cinco álbuns pertencentes a nomes importantes na música nacional e mundial, com as suas adaptações para a obra.

Peter and the Wolf [1975]

Com certeza, essa é a mais importante adaptação de Pedro E O Lobo para quem é apreciador de rock. Afinal, aqui houve a união de dinossauros do rock para gravar essa pérola. Dentre os músicos, Alvin Lee e Gary Moore nas guitarras, Manfred Mann e Garry Brooker nos sintetizadores, Keith Tippett no piano, Phil Collins, Cozy Powell e Bill Bruford na percussão, e vários outros fazem a versão rocker da obra de Prokofiev. Os personagens que possuíam, na versão original, sons típicos de orquestra, aqui ganham sons de instrumentos elétricos. Peter, originalmente era a orquestra inteira. Aqui, é a linda slide guitar de Gary Moore. O pássaro (flauta) vira o sintetizador, o pato (oboé) é a guitarra com wah-wah, o gato (clarinete) é o violino. O avô (fagote) é um majestoso saxofone, e o lobo (trompas) é feito pelos sintetizadores de Brian Eno. Ainda, a adaptação é muito boa de se ouvir. Temos blues em "Cat Dance", progressivo em "Peter's Theme", e criações especiais para esse disco, com destaque para "Bird and Peter", o complexo dedilhado de "Peter's Chase", "Cat and Duck" e a ótima "Wolf and Duck", faixa fantástica com um show do baixo de Percy Jones, da bateria furiosa de Collins e a guitarra alucinada de Chris Spedding. A versão nacional em vinil ainda trazia um luxuoso encarte de 12 páginas, com a história narrada em inglês, francês, português, italiano e espanhol. Um show musical para roqueiro nenhum colocar defeito.

Viv Stanshall (narrador), Gary Moore (guitarra, violão, slide guitar), Pete Haywood (steel guitar), John Goodsall (guitarras), Alvin Lee (guitarra), Robin Lumley (piano elétrico), Julie Tippettts (voz), Erika Michailenko (sinos tubulares), Brian Eno (sintetizadores), Mandred Mann (sintetizadores), Garry Brooker (sintetizadores), Dave Marquee (baixo), Andy Pyle (baixo), Percy Jones (baixo), Cozy Powell (bateria), Phil Collins (bateria, percussão), John Hiselam (percussão), Bill Bruford (percussão), Keith Tippett (piano), Robin Lumley (clarinete, piano, mellotron), Jack Lancaster (saxofone), Stephane Grappelli (violino), English Chorale (coral), Henry Lowther( trompete)

1. Introduction
2. Peter's Theme
3. Bird And Peter
4. Duck Theme
5. Pond
6. Duck And Bird
7. Cat Dance
8. Cat And Duck
9. Grandfather
10. Cat
11. Wolf
12. Wolf And Duck
13. Threnody For A Duck
14. Wolf Stalks
15. Cat In Tree
16. Peter's Chase
17. Capture Of Wolf
18. Hunters
19. Rock And Roll Celebration
20. Duck Escape
21. Final Theme


David Bowie Narrates Prokofiev's Peter And The Wolf / Young Person's Guide To The Orchestra [1978]

David Bowie também resolveu participar da festa, e acompanhado da Philadelphia Orchestra, comandada por Eugene Ormandy, soltou sua versão para a obra. O marco dessa gravação é ter chegado ao posto 136 da Billboard americana, façanha rara para um disco de história infantil. O belíssimo instrumental é fiel ao proposto pelo compositor russo, sendo o mais próximo do original entre os álbuns aqui apresentados. No lado B, a orquestra interpreta "Young Person's Guide To The Orchestra Op. 34", de Benjamin Britten, que é um extra dentro da peça central. Para colecionadores da obra do camaleão, admiradores de uma música clássica de alto calibre e também para servir de aula de inglês para seus filhos entre 06 e 12 anos.

Orquetra: Philadelphia Orchestra; Narração: David Bowie; Condutor: Eugene Ormandy

1. Peter And The Wolf Op.67
2. Young Person's Guide To The Orchestra Op.34


Pedro E O Lobo [1989]

Essa versão é sensacional. Rita Lee, com toda sua simpatia e capacidade de interpretação (à época), traduz para as crianças (e os adultos) brasileiros a peça de Prokofiev. Como ela diz no início: "Como ainda não existia televisão, Prokofiev resolveu brincar com a imaginação das crianças ...", e assim, ela pede para as crianças apagarem as luzes, sentir os instrumentos, e começa a apresentar a peça. A orquestração da Orquestra Nova Sinfonieta é tão linda quanto as demais citadas anteriormente, cuidadosamente conduzidas por Roberto Tibiriça. O texto ficou a cago de Wladimir Soares, que também foi responsável pelo projeto. Uma raridade da discografia de Tia Rita, que você irá dar muitas risadas, e que apesar de seguir a história original, não trazendo nenhuma canção nova, vale pela divertida interpretação da ex-Mutante.

Orquestra: Nova Sinfonieta; Narração: Rita Lee; Condutor: Roberto Tibiriça

1. Pedro E O Lobo

Peter and the Wolf: A Prokofiev Fantasy [1994]

Em 1994, foi produzido um especial para a TV chamado Peter and the Wolf: A Prokofiev Fantasy. A narrativa da obra ficou a cargo de Sting. O especial foi feito usando pessoas e bonecos para interpretarem os personagens da história, e acabou sendo lançada a trilha sonora de mesmo nome. A principal atração da trilha, além da participação de Sting, é claro, é a excelente performance musical da Chamber Orchestra of Europe, conduzida pelo maestro italiano Claudio Abbado. Os extras musicais são dignos de audição prazerosa e atenta. Sting é um mero narrador, sem ser o centro das atenções, pois são as belas sequências orquestrais que valem a aquisição dessa versão. Quem aprecia música clássica, irá se deliciar com os momentos criados especialmente para o especial, com efusiva melodia em "Just Then ... Out Of The Woods Came The Hunters", e também com as virtuoses "Allegro", "Larghetto" e "Gavotta". O especial foi lançado em laser disc e VHS, e chegou a ser apresentado em alguns canais abertos aqui no país, tornando-se bastante emocionante para os nostálgicos.

Orquestra: The Chamber Orchestra of Europe; Narração: Sting; Condutor: Claudio Abbado

1. March In B Flat Major, Op. 99
2. Peter And The Wolf Op. 67 - A Musical Tale For The Children
3. Overture On Hebrew Themes Op. 34b - Un Poco Allegro
4. Classical Symphony Op. 25
5. Allegro
6. Larghetto
7. Gavotta: Non Troppo Allegro
8. Finale: Molto Vivace

Peter and the Wolf in Hollywood [2015]

A versão mais recente para os roqueiros tem narrativa de Alice Cooper, e é totalmente modernizada em relação a história original. Pedro é um menino russo que vai morar com o avô, um velho hippie, em Los Angeles. O velho cria patos, dentre eles, um que até sabe ler. Entre várias novas peripécias, criadas pela dupla Doug Fitch e Edouard Getaz, criadores do grupo Giants Are Small, que recriam grandes clássicos da literatura e da música mundial, há paparazzos e um robô construído pelo próprio Peter, o qual é  responsável por capturar o lobo. A orquestração ficou a cargo dos jovens da Germany's National Youth Orchestra, e a interpretação de Alice é tão engraçada quanto a de Rita Lee. Como curiosidade, a história divide-se musicalmente em duas partes. A primeira é composta por uma recriação total de várias peças clássicas unidas, trazendo referências a autorescomo Mahler, Wagner, Zemlinsky, Grieg entre outros. A segunda é uma adaptação em cima da obra original de Prokofiev. Você ainda pode conferir o Making Off e mais detalhes da nova história em um site exclusivo dessa adaptação (www.giantsaresmall.com). Vale tanto para colecionadores de Alice Cooper quanto para conhecer uma versão nova e divertida de uma obra atemporal.

Orquestra: Germany's National Youth Orchestra; Narração: Alice Cooper; Condutor: Alexander Shelley


1. Peter Arrives And Settles In Los Angeles
2. Peter's Birthday
3. The Wolf Hunt Begins
4. Peter Builds The Robot
5. The Hunt Continues
6. Back At Grandfather S Home
7. Peter Is Greeted By The Bird
8. The Duck Waddles Over
9. Peter Notices The Cat
10. Grandfather Warns Peter
11. The Wolf Reappears
12. The Duck Is Caught
13. The Wolf Stalks The Bird And The Cat
14. Peter Prepares To Catch The Wolf
15. The Bird Diverts The Wolf
16. Peter Catches The Wolf
17. The Paparazzi Arrive
18. The Procession To The Zoo

Os instrumentos e os personagens que eles representam na obra

sábado, 2 de dezembro de 2017

Consultoria Recomenda: Split albums



Tema escolhido por Fernando Bueno
Edição de Fernando Bueno
Com Alisson Caetano, Davi Pascale, Diego Camargo, Diogo Bizotto, Mairon Machado e Ulisses Macedo

Os splits álbuns são lançamentos que trazem músicas de dois ou mais artistas. Foram muito usados, principalmente por grupos iniciantes, que lançavam mão desse expediente por inúmeros motivos, desde os financeiros quanto o de parceria de bandas com diferentes graus de popularidade. Com o declínio do vinil no início dos anos 90 continuaram a ser lançados em CD, mas sem o mesmo encanto muito por conta das idiossincrasias do formato - não tinha mais lados diferentes para dividir as músicas e nem as capas, entre outros detalhes. A ideia para esse tema me veio depois de conhecer o álbum que acabei indicando aqui. Achei bastante inteligente a maneira que as bandas usaram o formato. O mais famoso split álbum lançado aqui no Brasil, o esforço conjunto de Sepultura e Overdose, acabou não sendo indicado por nenhum dos colaboradores. Esse álbum é um excelente exemplo de split álbum pois juntou duas bandas até bastante distintas. Na época os mais radicais acabavam riscando o lado do Overdose. Para ficar aqui no Brasil mesmo outro split bastante interessante para quem gosta de heavy metal tradicional as bandas Flageladör e Axecuter lançaram em 2016 o split Headbangers Afterlife. Mas vamos para as indicações dos nossos colaboradores.


Thorr Axe / Archarus - The Hobbit Split (2017)
Recomendado Por Fernando Bueno
Eu encontrei esse split por conta do nome. Todo mundo sabe que sou um grande fã da obra do Tolkien e tudo que acaba aparecendo relacionada à ela eu acabo me interessando. O mais interessante desse split é que as bandas não apenas dividiram um lançamento, como é normalmente feito em discos assim, mas também dividiram a história e alternaram as músicas para se encaixar na narrativa. É o primeiro split conceitual que eu conheci e não sei se existem outros. O Thorr-Axe inicia com uma música quase acústica, “Good Morning”, bastante calma para depois despejar peso sem dó em “Dawn Take You All”. Ambas as bandas podem ser encaixadas nas prateleiras do stoner ou doom metal, mas são diferentes entre si. Enquanto o Thorr-Axe é mais agressivo e seu vocalista Tucker Thomasson canta com um forte drive, o Archarus é mais clássico, melodioso e, até mesmo, mais técnico. Suas músicas talvez sejam as melhores do disco como “Foehammer” e “Flies and Spiders”, que tem um excelente groove, apesar da voz me parecer um pouco deslocada.
Alisson: Stoner bem genérico, com os mesmos esquemas de riffs e andamentos engessados que você poderia achar na internet afora. A introdução acústica tentando remeter ao universo Tolkiano é legal, apesar de tudo.
Diogo: Para alguém não muito chegado em stoner, até que a audição não foi ruim. O principal motivo disso é que as duas bandas não forçaram a barra nas timbragens de seus instrumentos, que não soam excessivamente podrões, na ânsia de soarem mais densos e pesados. Como é norma em quase tudo que escuto ligado a esse gênero, os vocais não são o forte. Tucker Thomasson, do Thorr Axe, parece uma versão com mais testosterona de Varg Vikernes (Burzum). Ainda assim, ele soa bem melhor que o vocalista do Archarus, Drew Smith, que é comunzinho até o osso. Como esperado, os riffs são simples, sem a fluidez dos mestres do peso arrastado, como Tony Iommi, Mats Björkman (Candlemass) e Jerry Cantrell (Alice in Chains). Mesmo assim, até que dão uma boa empolgada. Há uma dose mais evidente de blues nas guitarras do Archarus, com um senso melódico mais apurado, enquanto as do Thorr Axe pendem mais para a força bruta. Com um vocal condizente, “Foehammer”, do Archarus, poderia receber bastante destaque por aí. Apesar dessa característica negativa, inclusive, gostei mais da parte correspondente ao Archarus, que revelou mais criatividade e mostrou mais intimidade com a arte de compor.
Mairon: Lançamento recente de duas bandas que criaram um álbum conceitual sobre Hobbit (Tolkien). Criei uma baita expectativa com a instrumental "Good Morning", que abre o split, mas depois, começou o som pesado e vocais gritados que tomaram conta dessa edição do Recomenda. Ok, é legal de ouvir, mas meio que saturei de tanto peso. Parece que só bandas de metal lançam split, hehehe. Gostei mais das músicas do Archarus, me soaram melhor acabadas ("Erebor" é um baita som), e pelo menos ficou a curiosidade de conhecer as outras obras de ambos os grupos.
Davi: 2 bandas de doom metal se uniram para criarem um álbum em cima da história “O Hobbit” de J RR Tolkien. Embora ambos os grupos sejam considerados doom metal, as duas bandas possuem sonoridades bem distintas. Thorr Axe é mais arrastada e mais agressiva. Inclusive, os vocais são mais agressivos. Archarus já faz um som mais para cima. O som da banda é bem legal, os riffs são certeiros. Uma pena que o vocalista seja bem fraquinho. Com um cantor bom, esses caras iriam longe. Momentos de destaque: “Files and Spiders” e “Foehammer”, ambas do Archarus.
Diego: Stoner Rock/Metal, um gênero difícil de engolir, na minha opinião. Mas quando bem feito e em doses pequenas (como em EPs) pode ser algo bem bacana. E esse split é um bom exemplo. Músicas sólidas e uma produção até que boa para essas duas bandas do estado de Indiana nos EUA. Agora, uma coisa que não dá pra entender, e nem engolir, é esse estilo musical fazendo um trabalho conceitual sobre Tolkien. Não há absolutamente nada a ver som com texto/história.
Ulisses: Ideia bastante interessante para um split: ao invés de cada banda mostrar, em separado, seu material, o que acontece aqui em The Hobbit Split é que os dois grupos se uniram para criar um álbum conceitual sobre a jornada da saga d'O Hobbit, se intercalando durante o tracklist ao invés de cada um ter o seu lado. Com doses cavalares de stoner, doom e sludge. As composições são meio parecidas demais, longas e sem muitas variações fora os riffs que deixariam Iommi orgulhoso. Entretanto, gostaria de ver mais bandas fazendo split à essa maneira.


Deathspell Omega/S.V.E.S.T. - Veritas Diaboli manet in aeternum (2008)
Recomendado por Alisson Caetano
Em comum, ambas possuem a forma quase metafísica e filosófica de abordagem do satanismo. A abordagem sonora de ambas as bandas, entretanto, é o que deixa a apreciação do split como uma experiência além de ser a junção de duas bandas com sons parecidos. O S.V.E.S.T. faz habitual black metal gélido e de produção caótica, enquanto o caos do Deathspell Omega está na completa negação da tradição do black metal tradicional. Mesmo que seja difícil comparar qualidade quando se tem "Chaining the Katechon" de um lado, ainda é um dos splits mais interessantes da geração atual do black metal.
Fernando: Procurando sobre a banda parece que o Deathspell Omega gosta mesmo de um split. Lembro de já ter ouvido a banda em uma das outras edições do Consultoria Recomenda, e lembro-me também de já não ter gostado. Agora não foi diferente. Já o tal S.V.E.S.T. resolveu atacar na sonoridade do início do black metal lá na Noruega. Som abafado, sem nitidez e uma proposital tosqueira. Porém quando as bandas soavam assim lá no início era porque não tinham tecnologia, bons instrumentos e até mesmo faltava conhecimento para gravar o som que queria. Era toscos porque não tinham outra opção. Fazer o mesmo para tentar parecer true só os faz parecer idiotas. Um bom exemplo é a faixa que dá nome ao split com quatro minutos de perda de tempo.
Diogo: Quando vi a citação ao Deathspell Omega tive a certeza, de antemão, de que se tratava de um dos destaques desta edição, se não o maior. Não me decepcionei. A única longa música que ocupa a parte correspondente ao Deathspell Omega, “Chaining the Katechon”, tem tudo aquilo que eu ouvi de bom em outras obras do grupo francês que me foram apresentadas na Consultoria do Rock. Black metal criativo, climático, inovador, com sofisticação e capaz de prender a atenção do ouvinte mesmo em suas mais longas viagens. A faixa é uma só, mas são tantos os diferentes segmentos e tão variados em suas passagens, que ela acaba funcionando como várias. As três faixas do S.V.E.S.T. são mais primitivas e o abafamento dos instrumentos – excessivo até se comparado aos lançamentos noruegueses do início da década de 1990 – atrapalha um pouco sua percepção, mas se trata de material interessante. É uma escolha estética que eu respeito, mas, em se tratando de artistas mais recentes, prefiro a clareza do Deathspell Omega. Precisaria ouvir mais para emitir uma opinião mais definitiva.
Mairon: Caraca, o pessoal puxou metaleira de tudo que é lado nessa edição do Recomenda hein? Lembro que ouvi o Deathspell Omega numa outra edição do Recomenda e do Melhores de 2010 e não gostei daquele resultado final. O mesmo ocorre aqui. Que banda estranha. Velocidade da bateria é ridícula, e os vocais guturais são terríveis. Escapam-se alguns trechos onde há uma melodia possível de ser apreciada, que dessa feita, até aparece com mais frequência do que nos discos anteriores. Mas honestamente, os 22 minutos da única faixa da banda no split não conseguiu me atrair por completo. E o S.V.E.S.T. consegue ser ainda pior. Nessas horas me pergunto por que não criei uma banda de tosquice que nem essas aqui. Pelo menos teria um split gravado. Horroroso!!
Davi: O S.V.E.S.T é mais uma martelação com vocal vomitado. A qualidade de gravação é um pouco melhor do que a do Emperor, mas as “composições” são tão ruins quanto. Vocal é um pouco mais inteligível, mas igualmente chato. O Deathspell Omega é um pouco melhor, o arranjo é mais bem trabalhado, possui algumas passagens interessantes, mas aguentar uma música de 22 minutos desses caras é uma tarefa extremamente árdua.
Diego: Mais um split de black metal, na verdade isso nem surpreende, quando ouvi o tema da lista tinha certeza que ia ter só black metal, então estamos no lucro. Mas, se os outros splits aqui da lista foram muito interessantes, esse aqui é maçante e chato, basicamente. Tudo que eu não gosto no black metal geralmente está concentrado nesse split. Passo...
Ulisses: O lado A, com uma colossal composição do Deathspell Omega de mais de 20 minutos, já começa veloz, com constantes mudanças de andamento, riffs de guitarra dissonantes que ocasionalmente deixam escapar passagens melódicas, e uma bateria ocupadíssima. Uma montanha-russa brutal. O S.V.E.S.T., por sua vez, investe numa produção mais podrona (no bom sentido, para o black metal), com aquela pegada sonora mais tradicional do gênero. As duas bandas são francesas, mas fazem um som bem diferente dentro do mesmo estilo musical. Split interessante para quem é fã da cena; para quem não curte black metal, a apreciação é limitada.


Emperor - Emperor / Enslaved - Hordanes Land (1993)
Recomendado por Diogo Bizotto
Emperor e Enslaved são, desde seus primórdios, duas das mais desconcertantes bandas de black metal que a Noruega produziu. Por mais que o Enslaved, em especial, tenha passado por profundas transformações ao longo dos anos, seu caráter desafiador aparecia com destaque desde então, neste caso na forma de três longas faixas que mostram um grupo que, apesar de jovem (o guitarrista e tecladista Ivar Bjørnson tinha meros 15 anos), já tinha uma boa noção de como criar boas canções que fugissem do óbvio que o estilo vinha construindo. Há espaço para uma faixa variada e ambiciosa, caso de “Slaget i skogen bortenfor”, assim como para algo mais musculoso, vide “Allfǫðr Oðinn”. “Balfár”, por sua vez, é diferente de qualquer coisa que se ouvia na época em termos de black metal. Reouvir essas músicas inclusive me deu vontade de passar um tempo prestando atenção nos primeiros álbuns da banda. O Emperor, por sua vez, entrega de cara algumas das músicas mais marcantes de sua carreira, duas delas que inclusive apareceriam em seu excelente álbum de estreia, lançado menos de um ano depois. Em uma época na qual isso ainda era novidade, o grupo de Ihsahn e Samoth já investia em uma vertente mais sinfônica do black metal, inserindo teclados que mais tarde seriam trabalhados com maior eficiência, mas que já dão um tempero especial a canções que não primam apenas pela rispidez, mas pela construção de atmosferas envolventes, melodias estranhamente agradáveis e muita dinâmica, para não deixar nenhum ouvinte cansado. Para o estilo, o som de guitarra é muito bom, decorando riffs bem sacados. Gosto bastante das quatro músicas, mas hoje em dia tenho especial simpatia por “Cosmic Keys to My Creation & Times”. Particularmente, gosto um pouco mais da parte que cabe ao Emperor, mas, no geral, trata-se não apenas de um grande split sob um ponto de vista histórico, mas também sob um viés artístico.
Fernando: Até hoje não esqueço da zueira que o João Gordo fazia com o Emperor na MTV. Toda vez que falava de metal extremo ele vinha com o nome da banda falando com a voz típica do black metal, mãozinha de fogo e queixo pronunciado. A impressão é que deixaram uma TV fora do ar de fundo na gravação. Já o Enslaved começa como se alguém estivesse testando os efeitos de um teclado caseiro e em seguida uma desgraceira abafada e com som ruim demais de novo. Pelo menos ambas as bandas mantiveram a qualidade no split.
Alisson: A trajetória inicial de ambos os grupos tinha particularidades em comum, do uso bem dosado dos teclados a uma abordagem mais esmerada do black metal, folk no caso do Enslaved, e sinfônico no caso do Emperor. Não é um momento de destaque de nenhuma das duas, mas permanece como um registro bem particular de black metal já para a época.
Mairon: União dos dois EPs das bandas norueguesas Emperor e Enslaved, e que é de difícil audição para mim. O instrumental do Emperor até que é interessante, tem até umas cordas inseridas, mas o estilo de cantar do vocalista é tenebroso. Pior ainda é a produção, que abafou as guitarras e o baixo o que deu. O Enslaved consegue ser ainda pior. Para ser honesto, não deu para perceber que tinha mudado de banda, mas achei estranho que uma música não terminava mais, daí fui ver, e havia trocado o grupo que eu estava ouvindo. Prestei mais atenção e percebi que o instrumental do Enslaved não é tão bom quanto o do Emperor, e o vocalista é ainda mais tinhoso. Tirando a primeira e a última parte de "Balfǫr / Andi Fara / Epilog", que aliás, são praticamente iguais, foi uma tortura ouvir isso, meu Deus.
Davi: Aquelas típicas bandas que fazem um som pesado que ninguém entende nada. Não se entende o que os caras tocam. Não se entende o que os caras grunhem (chamar isso de cantor é uma ofensa aos cantores). A produção é ruim. Som extremamente abafado, voz muito acima dos instrumentos, bateria estridente, música sem melodia, teclados fora de propósito. Como não sabem compor, não sabem tocar, não sabem cantar e não possuem grana para uma produção decente, se pintam com uma maquiagem que parece de um cachorro (ataca aí no google as palavras “cachorro de pelúcia Jellycat”, ataca em imagens e repare no modelo branco malhado em preto. É muito parecido ao visual dessas bandas), fazem umas fotos posando de malvadão e fazem todo mundo acreditar que ser tosco é roots. Uma enorme tortura. Nenhum momento de destaque.
Diego: Meu conhecimento de black metal é mínimo, mas sempre que ouvi os chamados clássicos do estilo fiquei decepcionado, como eu já comentei algumas vezes por aqui na Consultoria. Tinha tudo pra ser o mesmo com esse split. Mas... não é o caso aqui. O Emperor realmente apresenta um EP de altíssima qualidade. A produção é suja, como o black metal pede, mas não é mal feita, todos os instrumentos estão em seu lugar. E me surpreendeu o uso dos teclados nesse play. Recomendado! O Enslaved em sua formação em nada lembra a banda nos dias de hoje. Mais uma vez os teclados são o destaque, mas o ataque brutal misturado às progressividades que a banda já tinha desde o começo dão um tom épico ao EP. Muito além do que eu esperava. Recomendado o EP, também.
Ulisses: Ambas as bandas ainda estavam no início de suas trajetórias, mas ao que parece já mostravam grande serviço, a julgar pela qualidade das composições presentes neste split. O Emperor traz fortes elementos de thrash e speed metal ao seu estilo black metal da segunda onda, fundindo-os com vocais carniçais e toques sinfônicos que aprimoram a atmosfera primitiva. "Night of the Graveless Souls" é impressionante; para mim, a melhor faixa do lado A. Já o Enslaved trabalha composições bem mais longas, com inserções orquestrais constantes e alguns coros, trazendo mais diversidade ao assalto sonoro ininterrupto que mais parece uma serra-elétrica. O lado do Enslaved pende um pouco mais para a repetição, mas não a ponto de ser ruim. Embora eu costume passar longe de black metal, devo dizer que até achei esse split legal.


Cólera / Ratos de Porão - Ao vivo na Lira Paulistana (1985)
Recomendado por Mairon Machado
A união de dois gigantes do punk nacional, ainda nos primórdios de suas vidas. Gravação tosca, produção crua, mas extremamente fundamental para a história do punk brasileiro. As canções do Cólera já mostravam suas letras manifesto que iriam ser o guia do grupo a partir de 1986, com seu terceiro álbum, Pela Paz em Todo Mundo. Destaque especial para as ótimas "Funcionários", "Quanto Vale a Liberdade?" e o protesto que parece que foi gravado hoje de "Duas Ogivas". O som do Ratos é ainda mais cru, mais mal gravado, e tão sacolejante quanto. É um Ratos bem diferente daquilo que se ouve em álbuns como Brasil ou Anarkhophobia, genuinamente paulistano e original, ou seja, nas palavras atuais, punk raiz. Jão gastando a garganta em "Anos 80",  "Agressão/Repressão"  e a clássica "Crucificados Pelo Sistema". Ainda, é um dos primeiros splits de punk rock lançados na América Latina. Precisa mais para recomendar esse álbum? Saia chutando cadeiras e almofadas pela casa, segure o pescoço e reviva os melhores momentos do punk brasileiro.
Fernando: Lançamento clássico aqui do Brasil. Por ser gravado ao vivo e no início de tudo é clara a falta de intimidade de todo mundo com a sua função: quem gravou provavelmente não sabia o que fazer na mesa e os músicos também não sabiam muito bem o que fazer com cada um dos instrumentos. Mesmo assim, um disco gravado com tanta precariedade ainda consegue ser melhor que os discos de black metal da lista. O Cólera faria sucesso atualmente em um eventual showmício do PSTU. A parte do Ratos de Porão é interessante por conta da performance do então vocal Jão que ainda estava criando o estilo da banda. O registro como um todo vale mais por razões históricas do que por qualquer resquício de boa música.
Alisson: Ambas as bandas ainda no início de suas trajetórias, e ambas ainda longe de achar o som mais aprimorado de suas carreiras. Independente do amadorismo na execução (reclamar da qualidade do som é besteira, pra um disco independente de punk, o som está maravilhoso), a atitude do som e a importância histórica para o punk nacional elevam o valor do registro.
Diogo: Do mesmo modo que o cara acaba sendo um pouco condescendente com certas tosqueiras dos primórdios do heavy metal brasileiro, acho que cabe neste caso um pouco de justiça e ter alguma condescendência com um álbum como este, dos primórdios do punk nacional. Musicalmente, o Cólera é bem fraquinho, repetitivo e nem chega a compensar com garra e energia. As letras então, nem se fala. Além de serem infantis, mal conectam-se com o instrumental. Acho que não tem como ser muito condescendente com isso aí. Sem Gordo no vocal, o Ratos de Porão perde muito daquilo que o torna especial, mas Jão ainda consegue dar um banho em Redson, do Cólera. O cara se esgoela feito doido em seu paulistanês típico e soa bem mais agressivo em suas vociferações e pequenos discursos entre as faixas. A qualidade da gravação parece ainda pior que a do Cólera (certas horas ouve-se apenas bateria e vocal), mas com isso eu posso ser condescendente, pois o Ratos mostra-se mais enérgico e original em seu hardcore toscão. Gostar de verdade eu não gostei, mas o Ratos ao menos é audível. Do Cólera eu prefiro passar bem longe.
Davi: Disco histórico da cena punk brasileira. Infelizmente, é um disco histórico que não traz muita qualidade musical. Cólera é uma banda importantíssima no cenário brasileiro, mas ao vivo era bem fraca. Ratos de Porão é uma banda que eu curto, considero-os até lendária, mas essa fase inicial era justamente isso, o início. A banda ainda estava em fase de desenvolvimento e o trabalho vocal do Jão não me agrada muito. Gosto muito mais do João Gordo. Temos aqui as bandas tocando com bastante energia, letras ásperas, arranjos velozes com poucos acordes, só que tudo excessivamente tosco. Vale por seu conteúdo histórico.
Diego: Definitivamente um marco para o Punk Brasileiro, mas é só isso mesmo. Qualidade lastimável, musicalidade amadora e depois de ouvir uma vez não se precisa ouvir de novo, nunca mais.
Ulisses: Um retrato do punk nacional. Faixas uma atrás da outra, sem descanso. Só conhecia o Ratos, mas também achei o Cólera legal. Ouvir o split numa tacada só (41 minutos) é cansativo, mas isto já era esperado, pois só curto punk em doses pequenas.


Kyuss / Queen of Stone Age (1997)
Recomendado por Davi Pascale
Lançado originalmente em 1997, esse EP apresenta as duas facetas de Josh Homme. Kyuss apostava numa pegada mais de stoner rock. Há quem os considere os pais do movimento, inclusive. Como todas as bandas do gênero, temos um som cadenciado, pesado e retrô com influencias de blues, heavy metal e muita psicodelia. Assim como acontece com 99,99% das bandas da cena, a influência de Black Sabbath é gritante. E eles não fazem questão nenhuma de esconder isso. Tanto que eles abrem o disco com uma competente versão de “Into The Void”.  O restante do lado A é completado com canções autorais. Para ser mais preciso, as duas partes de “Fatso Forgotso”. A parte 1 é a mais bacana e a melhor faixa do Kyuss nesse disco. Para quem curte o som do Queens Of The Stone Age, esse EP ganha atualmente, um aspecto histórico. Afinal, esse foi o primeiro lançamento oficial dos rapazes. Em comparação ao Kyuss, o Queens Of The Stone Age sempre trouxe uma pegada mais experimental, o que é perceptível com clareza na ótima “Born to Hula” e, principalmente, na instrumental “Spiders and Vinegaroons”. A excelente “If Only Everything” é a primeira versão de “If Only”, canção que apareceu no álbum de 1998. Embora, nessa época, ainda fossem uma banda novata, os rapazes já demonstravam confiança e provavam que estavam no caminho certo. Disco bem bacaninha...
Fernando: Interessante esse lançamento. Josh Homme é um cara bastante respeitado, não só pelo Kyuss, uma banda clássica do stoner, mas também pelo que ele fez no Queens of Stone Age, apesar de eu, sinceramente, não encontrar tanta genialidade assim no som das duas bandas. Não desgosto das duas, mas não tenho tanto interesse assim. Prefiro o que ele fez no Them Crooked Vultures. O disco abre com “Into the Void” do Black Sabbath e é um ótimo exemplo do que temos a seguir com bastante peso e som cadenciado. Já o Queens of Stone Age tem uma pegada mais pop, mais acessível, apesar das experimentações, mas a raiz é muito parecida.
Alisson: Lançado pouco tempo antes do primeiro disco do Queens of The Stone Age e 2 anos após o fim das atividades do Kyuss, esse split é quase uma forma de apresentar a transição sonora que se daria de uma banda para a outra. O lado do Kyuss mata um pouco da saudade do som carregado de fuzz e improvisações, com o bônus de um cover operante de "Into the Void". Já o QotSA, apesar de bem imaturo e a procura do som e de um formato de composições ideais, já deixa boas impressões com um som bem mais aparado em termos de melodias e composições que seguem um padrão verso - ponte - refrão, algo mais palatável mas sem deixar as raízes desérticas de lado.
Diogo: A primeira impressão não é das melhores, afinal de contas, o Kyuss pegou uma das melhores músicas do Black Sabbath e gravou-a em uma versão sem muitos atrativos. A coisa continua meio morna com “Fatso Forgotso”, que até dá uma engrenada em sua segunda metade, mas me incomoda em seus timbres. “Fatso Forgotso Phase II” me agradou menos ainda. O Queens of the Stone Age, felizmente, pratica em sua parte uma sonoridade mais agradável (mas nem tanto), com boas pitadas de melodia e guitarras melhor costuradas. A melhor faixa do split é “Spiders and Vinegaroons”, daquelas que nos transportam para o ambiente desértico onde essas bandas foram formadas. Ainda assim, não chega a empolgar como aquilo que o Queens of the Stone Age faria anos depois, com Songs for the Deaf (2004).
Mairon: Splitzinho que começa surpreendendo com uma ótima versão do Kyuss para "Into the Void", o clássico do Black Sabbath. Aqui, ela foi alongada um pouco, com um solo de guitarra não muito digno à versão original, mas o grupo escapa-se com pontuação de Z4 pela sua participação no split, já que as outras duas faixas são boas também, pesadas, com fortes inspirações no grunge e no hard setentista, e destacando o baixão de Scott Reeder. O som do QOTSA é também pesado, porém sem o impacto do Kyuss. Mesmo assim, curti as viagens instrumentais de "Spiders And Vinegaroons", e achei "Born To Hula" a melhor faixa do CD. Gostei do que ouvi, mas não levaria para casa.
Diego: Uma coisa que eu nunca entendi é o hype em cima do Kyuss. Na verdade eu nunca entendi o hype em cima do chamado stoner. O último lançamento da banda não muda em nada minha opinião. Eu gosto de bandas que fazem cover, mas qual é o sentido de fazer uma cover e tocar a música 99% igual a original? As outras duas faixas só repetem a primeira e explicam o Kyuss em uma frase curta: Uma banda que queria ser o Black Sabbath, mas obviamente, não podia. Mostrando a evolução de uma banda pra outra temos o embrião do que viria a ser o QOTSA. Já sem muito stoner, mas ainda influenciado. No geral ok, mas falta ainda um pouco nesse EP, esse pouco viria mais tarde.
Ulisses: Até cogitei em indicar esse EP, mas é figurinha carimbada. Marcando uma transição entre o fim de vida do Kyuss e o início do Queens of the Stone Age, bandas lideradas por Josh Homme, o EP traz três faixas em cada lado, uma para cada banda. Curto o estilo do Kyuss, mas bem pouco o do QOTSA, mas o interessante do split é justamente que o QOTSA ainda não havia desenvolvido seu costumeiro rock alternativo, tentando construir sua identidade sonora distinta do Kyuss. As três faixas do Queens são bem distintas uma das outras: "If Only Everything" é um rock de ritmo bem pontuado, enquanto que "Born to Hula" é intensa e com bons vocais de Homme; já a estranha instrumental "Spiders and Vinegaroons" combina drone com elementos eletrônicos. Prefiro as três composições do Kyuss (das quais uma é um excelente cover de "Into the Void" do Black Sabbath), mas o split é ótimo na íntegra; definitivamente não decepciona.


Labirinto / thisquietarmy (2013)
Recomendado por Diego Camargo
Quando o tema foi sugerido confesso que me veio um enorme 'PQP, que merda de tema' na cabeça. Eu não ouço split e os poucos que ouvi não me disseram nada. Então dos dois ou 3 que eu tinha em mente o único que eu achei por bem indicar foi esse, não porque é ótimo, simplesmente porque não o menos ruim de todos que eu conhecia... e também porque o Labirinto é uma banda bacana de São Paulo. Eu não gosto de post rock, e por mais que eu tente nunca consegui nem simpatizar com o estilo. Mas por algum motivo eu gosto do Labirinto. A metade do Labirinto é definitivamente a parte que vale a pena nesse split. Interessante sem ser maçante e experimental sem ser pedante. A banda canadense thisquietarmy tem diversos splits em sua discografia e parecer ser expert no tema. Mas isso não muda em nada o fato de que a parte deles é absurdamente chata e impossível de ouvir do começo ao fim sem apertar o Stop automaticamente. Escutem o Labirinto e esqueçam o thisquietarmy.
Fernando: Como um bom prog o som do Labirinto demorou para engrenar, mas foi apenas uma impressão, já que o tipo de som tem essas características. Talvez o que eu estava ouvindo antes de pegar esse split tenha me influenciado. Achei uma vibe mais space rock na linha do Tangerine Dream. Legal saber que é uma banda brasileira. Já o thisqueitarmy, uma one-man band do Canadá, inicia como se fosse uma trilha sonora do Stranger Things, que como passar do tempo na primeira faixa me pareceu totalmente descabido. Entendo uma dramaticidade para início, mas por 5 min? Nem o Dream Theater faria dessa forma. E se engana quem imagina que a música seguinte seria diferente. A mesma cama sonora absolutamente sem direção. Depois que percebi que o som da banda era esse mesmo fiquei pensando se iria até o fim ou não. Resolvi ir para não dizerem que eu não ouço as coisas. A faixa seguinte tem um pouco mais de variação, uma tensão crescente que combina com o título “World Protest”.
Alisson: Ambas as bandas tem propriedade no que fazem. O Labirinto ainda consegue se sair melhor com um som mais dinâmico e menos apelativo de crescendos, variando entre estruturas clássicas e elementos de sludge atmosférico, enquanto o thisquietarmy vai para o lado mais ambient e eletrônico. Para quem gosta de post-rock, o split oferece boas abordagens em ambos os lados, mesmo sem reinventar nada.
Diogo: O post-rock é um estilo pelo qual eu não nutro muita admiração. Em geral, enxergo os trabalhos de grupos assim mais como paisagens sonoras que estabelecem um estado de espírito, geralmente de desolação, do que como canções propriamente ditas. Isso não quer dizer que algumas dessas paisagens não possam ser belas e/ou possuir serventia. A metade deste split ocupada pelos paulistanos do Labirinto, por exemplo, tem a maior cara de que renderia uma trilha sonora para um filme de terror europeu. “Diluvium”, em especial, seria perfeita em uma película italiana. Não é o tipo de coisa que ouço com grande prazer, mas funciona bem. Já a parte do split que cabe aos canadenses do thisquietarmy é um pouco mais maçante, investindo em uma vertente mais atmosférica. Há alguns segmentos interessantes, especialmente a segunda metade de “World Protest”, mas nada ao ponto de me dar vontade de ouvir as faixas novamente. Posso estar viajando, mas percebi até alguns ecos de Vangelis nas faixas de autoria do thisquietarmy.
Mairon: Split curtinho, de mais duas bandas que não conhecia. O som do thisquietarmy é uma viagem, literalmente. Experimentações sonoras que geram um clima de apreensão, reflexão, um tanto quanto sinistro, e que na realidade não é uma música, mas uma forma de exposição sonora muito interessante. O som dos brasileiros do Labirinto também é muito experimental, porém já rola melodia e harmonia musical. Guitarra e bateria ganham espaço com destaque entre as camadas de sintetizadores, com um belo dedilhado da primeira em "Tahrir", e um encantador acompanhamento na linda "Diluvium", onde os sintetizadores emulam cordas de forma magnífica. "11 Palmos" é a canção mais experimental, focando-se em um meditativo e repetitivo riff de guitarra, caindo numa poderosa parede sonora com muita distorção. Excelente!!! Segundo melhor álbum desse Recomenda, atrás do que eu indiquei, lógico.
Davi: Disco extremamente viajado e inacreditavelmente chato. Arrastado, canções que são capazes de fazer com que o Sérgio Mallandro caia em um sono profundo em menos de 3 minutos. Uma tarefa dificílima decidir quem é o mais chato do split. Ambos merecem o troféu de “mala do milênio”. A faixa um pouco menos insuportável é “Diluvium”, portanto acredito que o Labirinto pegasse o segundo lugar, mas não dá para afirmar. O páreo é duro. Não recomendaria isso ao meu pior inimigo. Deveria ser vendido nas farmácias como calmante tarja preta.
Ulisses: Conheço a Labirinto só de nome; ao que parece, são um dos grandes nomes do post-rock no Brasil. No split, eles trazem as três primeiras composições, costurando guitarras pesadas com passagens atmosféricas e desoladoras. Os canadenses do thisquietarmy fazem o resto, mas têm um estilo drone e ambiente bem mais tranquilo e sereno, que não combina com o que os paulistanos trazem. O lado do Labirinto é definitivamente mais memorável e recompensador.


Witching Altar / Necro (2015)
Recomendado por Ulisses Macedo
Algumas pessoas aqui devem se lembrar de quando eu indiquei o Necro, banda daqui de Alagoas de rock com toques de stoner, doom e psicodelia, na minha lista de 2014. Para o tema deste Recomenda, nada melhor do que um split que meus conterrâneos fizeram com os Pernambucanos do Witching Altar. O Necro jogou seguro, não trazendo nenhuma novidade: "Contact", com os fortes vocais dobrados da Lillian (guitarra) e do Pedro (baixo), havia sido lançada em formato single poucos meses antes do Split, e as outras duas faixas são versões ao vivo de composições dos álbuns anteriores, tocadas em São Paulo. Já o Witching Altar, que eu não conhecia nem de nome, traz um doom metal tradicional, legalzão e todo inédito, já que esse tracklist era para ser um EP deles, antes da Hydro-Phonic Records sugerir a junção com o Necro. Lançamento bacana, sólido do começo ao fim e que traz um bom exemplo do rock nordestino para aqueles que estão por fora da cena. E essa capa, então? Cristiano Suarez se supera a cada lançamento...
Fernando: O Witching Altar me surpreendeu logo de cara. Seu doom metal consegue ter uma identidade própria, algo difícil de acontecer nesse estilo, apesar inevitáveis comparações com o Black Sabbath que podemos fazer em alguns momentos. O solo de “The Monolith”, por exemplo é bastante viajandão, quase psicodélico. A temática, entretanto, já é a bem conhecida capirotagem. O Necro foi mais difícil de avaliar. O som é também calcado no doom, mas tem doses de outros estilos em passagens diferentes. No geral esse foi o split que mais gostei fora o que indiquei.
Alisson: Fácil achar outras mil bandas iguais ao Necro, com o mesmo som viajandão e pesado. Pior ainda é no caso do Witching Altar, que vai sem dó nem piedade no Ctrl+C Ctrl+V no som do Electric Wizard e de qualquer outra banda de doom tradicional inglesa. Não ofende, mas é genérico demais para prestar muita atenção.
Diogo: Doom metal é bem melhor que stoner, não é? Para muitos a diferença pode ser mínima, mas para mim é suficiente para diferenciar aquilo que gosto daquilo que não gosto. O Witching Hour faz um trabalho legal, em uma linha mais influenciada pelo Trouble do que pelo Candlemass, isto é, menos épica e com uma pegada mais blues. O vocal de T. Witchlover, inclusive, parece ser inspirado no de Eric Wagner (Trouble), apesar de não ter o mesmo brilho. “Die Alone” é um belo destaque e chega a lembrar o Black Sabbath dos primórdios. A parte que cabe ao Necro, infelizmente, não mantém o mesmo nível, especialmente por causa dos vocais, que são ruins e se sobrepõem a qualquer boa ideia instrumental. Não sou entendido em canto, por isso corro o risco de falar bobagem, então pergunto aos meus colegas: isso não está no limiar da desafinação mesmo?
Mairon: Mais som pesado, porém não tosco quanto outros. Para o Witching Altar, percebemos fortes influências de Sabbath ("Die Alone" essencialmente), ou seguindo uma linha mais stoner, no caso "She Rides the Seventh Beast" e "This Place is Death". Essa banda foi legal de ouvir. Já os alagoanos do Necro foi uma grata surpresa. Os caras tem uma pegada setentista muito boa, com solos rasgados mas com certa modernidade, e que atiçam a audição. Em especial, curte as viagens alucinógenas de "Holy Planet Yamoth", a melhor faixa do splitzinho. "Mente Profana" é uma deliciosa viagem pesada, com vocalizações assustadoras, e "Contact" serve para acreditarmos que sim, é possível ainda achar boas bandas em nosso país. Lilian Lessa, vocalista e baixista, é um instrumentista sensacional! Muito massa, e vou atrás do resto de sua obra.
Davi: Duas bandas brasileiras. Confesso que não conhecia. Necro faz um som mais psicodélico. É perceptível a influência de progressivo. Principalmente em “Contact”. Pelo que entendi, temos 2 cantores na banda. Trabalho vocal da já citada “Contact” está bem resolvido. Nas faixas onde Lilian assume a frente, gostei de sua performance em “Mente Profana”. Já em “Holy Planet Yamoth” não ficou bacana. Witching Altair já aposta uma sonoridade mais doom. “The Monolith” achei bem chatinha, mas em seguida as composições sobem de nível. As melhores são “Die Alone” e especialmente “She Rides The Seventh Beast”, onde a influencia de Black Sabbath fala alto. Trabalho legalzinho...
Diego: Olha aí a estrela da lista! Ótimo split e dá gosto de ver que é de banda brasileira. É verdade que Doom Metal pode ser sacal, mas o Witching Altar faz bem feito. Tudo bem que dá pra ver que Black Sabbath é a única influência dos caras, as vezes é 'na cara' demais, até. Mas o resultado final é muito bom, além da média e vale a pena ouvir. O Necro eu já conhecia, e se nos discos que eu tinha ouvido eles eram crus demais e com uma produção bem ruim, nesse split os caras estão profissionais e com uma ótima gravação. Sem contar que a mistura de Doom, Progressivo, Heavy Psych, Acid Rock que eles fazem é muito interessante. Recomendadíssimo!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

UFO e Os Anos na Chrysalis - Parte II (The Chrysalis Years 1980 - 1986) [2012]




Seguindo sobre os boxes lançados pela Chrysalis, no início dessa década, trazendo material do UFO, hoje apresento o segundo deles, o qual cobre o período entre 1980 e 1986.

Essa foi uma época conturbada para os ingleses. Michael Schenker saiu da banda depois da turnê de Obsession, e abriu espaço para que o UFO começasse a se guiar por novas sonoridades. Para seu lugar, veio o galês e ex-Lone Star Paul "Tonka" Chapman, o qual é o nome das seis cordas em quatro dos cinco CDs dessa segunda caixa. Antecipo que outras mudanças ainda ocorreram nesse período.

Concentrando-se na caixa, a estreia de Chapman está no CD 1, ou seja, o álbum No Place To Run (1980). Gravado com a produção de George Martin, é um álbum que se afasta dos riffs pesados e traz uma sonoridade bastante atual - para a época - com os teclados de Paul Raymond destacando-se, sendo que antes eles ficavam bem sombreados pela guitarra de Schenker. Ao lado dos dois Pauls, estão Pete Way (baixo), Phil Mogg (vocais) e Andy Parker (bateria). Todo o No Place To Run está na íntegra, seguido pelas faixas bônus "Young Blood" (versão editada) e "Hot 'n' Ready", gravada ao vivo mas sem registro de onde e quando foi gravado, o que é uma falha importante para os colecionadores, apesar de algumas fontes dizerem que essa versão foi registrada em Cleveland, Ohio, em 1980.


UFO na formação de Making Contact: Pete Way, Phil Mogg, Andy Parker e Neil Carter

Ainda no CD 1, surge a cereja do bolo dessa caixa, que é a primeira parte da apresentação da banda na BBC em 04 de fevereiro de 1980, e que estava inédita até então. Nessa apresentação, podemos conferir o talento de Tonka, já que além de apresentar com segurança as faixas de No Place To Run ("Lettin' Go", "Young Blood" e "No Place To Run"), ele também voa alto nos clássicos do grupo, s quais são "Out In The Street", "Cherry", "Only You Can Rock Me" e "Love To Love. Ok que em "Love To Love" podíamos esperar um pouco mais de Chapman, principalmente por que estamos acostumados com Schenker sempre mandando ver no solo final, mas o garoto não faz feio nessa apresentação, a qual segue no CD 2 com mais cinco faixas: "Mystery Train", uma versão ampliada em relação ao que foi gravado em No Place To Run, com alguns improvisos a mais, "Doctor Doctor", "Too Hot To Handle", "Lights Out" e "Rock Bottom". Esses quatro clássicos também mostram toda a competência de Chapman, e novamente, se ele não é um Schenker, também não faz feio.

Só essa apresentação na BBC já vale o box, principalmente por que não existe nenhum outro registro oficial ao vivo com Chapman, mas a caixinha continua, e complementando o segundo CD, está todo o segundo disco com Chapman, The Wild, The Willing and the Innocent. Lançado em 1981, foi o primeiro disco da banda totalmente autoproduzido, e conta com Neil Carter substituindo Paul Raymond nos teclados, já que Raymond uniu-se a Michael Schenker no Michael Schenker Group. Carter além de tocar teclados, também era um belo guitarrista, e possuía talento no saxofone, o qual empregou no pequeno hit "Lonely Heart", cuja versão editada, que foi lançada em 7", complementa o segundo CD.



O terceiro CD é dedicado apenas para o álbum Mechanix, o álbum mais bem sucedido dessa era. Mechanix ficou marcado por ser a despedida de Pete Way, que foi fazer sucesso ao lado de "Fast" Eddie Clarke no Fastway, e está em sua totalidade no CD 3, com o saxofone surgindo com mais evidência em "The Writer", "Somethin' Else"  e principalmente no único bônus do CD, a faixa "Heel of a Stranger", que originalmente saiu apenas na versão japonesa de Mechanix. Ou seja, um atrativo menor perto dos grandes bônus dos dois primeiros CDs.

Carter acabou assumindo a função de baixista, e junto com Billy Sheehan, é o responsável pelas quatro cordas em Making Contact, um dos maiores fracassos comerciais da carreira do UFO, e que está presente no CD 4, junto com os bônus "Everybody Knows" e "When It's Time to Rock", com a primeira também tendo saído apenas na versão nipônica do álbum, e sendo lado B do single de "When It's Time to Rock", e as cinco faixas ao vivo da bela coletânea Headstone, "We Belong To The NIght", "Let It Rain", "Couldn't Get It Right", "Electric Phase" e "Doing It All For You", as quais foram registradas no Hammersmith Odeon em 1983.


O quinto e último CD traz o retorno do UFO aos palcos e aos estúdios, com uma formação totalmente diferente. Dos membros originais, ficou apenas Phil Mogg, agora acompanhado de Tommy "Atomik Tommy M" McClendon nas guitarras, Paul Gray no baixo e Jim Simpson na bateria. Fechando o time, o retorno de Paul Raymond aos teclados. Essa formação gravou Misdemeanor (1986), e colocou o pé na estrada para tentar ressucitar o UFO. O resultado não foi dos melhores comercial e musicalmente falando, e pode ser conferido aqui em sua totalidade, com os bônus "The Chase", "Night Run", "Heaven's Gate" e "One Heart", todos lados B dos singles lançados na época.

Novamente, não há um encarte caprichado. Nele, temos outra entrevista com Mogg, narrando sobre essa fase da banda, e através das suas palavras, percebe-se que ele não é muito confortável em falar sobre esse período do UFO. Sendo assim, o principal destaque fica para a participação ao vivo do UFO na BBC em 1980, o que se para você não é o suficiente, então nem é necessário adquirir essa caixinha.

Em três semanas, comento sobre a maior das caixas, a que contém 10 CDs, e trago os prós e contras para a sua aquisição.

Contra-capa desse box
Disc: 1
  1. Alpha Centauri 
  2. Lettin' Go
  3. Mystery Train
  4. This Fire Burns Tonight
  5. Gone In The Night
  6. Young Blood
  7. No Place To Run
  8. Take It Or Leave It
  9. Money Money
  10. Anyday
  11. Young Blood (7" Edit)
  12. Hot 'N' Ready (Live In Cleveland, Ohio)
  13. Lettin' Go (BBC In Concert)
  14. Young Blood (BBC In Concert)
  15. No Place To Run (BBC In Concert)
  16. Out In The Street (BBC In Concert)
  17. Cherry (BBC In Concert)
  18. Only You Can Rock Me (BBC In Concert)
  19. Love To Love (BBC In Concert)

Disc: 2
  1. Mystery Train (BBC in Concert)
  2. Doctor Doctor (BBC In Concert)
  3. Too Hot to Handle (BBC In Concert)
  4. Lights Out (BBC In Concert)
  5. Rock Bottom (BBC In Concert)
  6. Chains Chains
  7. Long Gone
  8. The Wild, The Willing And The Innocent
  9. It's Killing Me
  10. Makin' Moves
  11. Lonely Heart
  12. Couldn't Get It Right
  13. Profession Of Violence
  14. Lonely Heart (7" Edit)

Disc: 3
  1. The Writer
  2. Somethin' Else
  3. Back Into My Life
  4. You'll Get Love
  5. Doing It All For You
  6. We Belong To The Night
  7. Let It Rain
  8. Terri
  9. Feel It
  10. Dreaming
  11. Heel Of A Stranger

Disc: 4
  1. Blinded By A Lie
  2. Diesel In The Dust
  3. A Fool For Love
  4. You And Me
  5. When It's Time To Rock
  6. The Way The Wild Wind Blows
  7. Call My Name
  8. All Over You
  9. No Getaway
  10. Push, It's Love
  11. Everybody Knows
  12. When It's Time To Rock (7\" Edit)
  13. We Belong To The Night (Live At Hammersmith)
  14. Let It Rain (Live At Hammersmith)
  15. Couldn't Get It Right (Live At Hammersmith)
  16. Electric Phase (Live At Hammersmith)
  17. Doing It All For You (Live At Hammersmith)

Disc: 5
  1. This Time
  2. One Heart
  3. Night Run
  4. The Only Ones
  5. Mean Streets
  6. Name Of Love
  7. Blue
  8. Dream The Dream
  9. Heavens Gate
  10. Wreckless
  11. The Chase
  12. Night Run (US Remix)
  13. Heavens Gate (US Remix)
  14. One Heart (US Remix) 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Aerosmith - Parte IV



Com um contrato milionário, o grupo volta a Columbia e passa por um período turbulento, com várias trocas por trás dos bastidores, e com Kramer sofrendo de depressão, chegando a ser substituído temporariamente por Steve Ferrone. 

Capa original de Nine Lives

Nesse turbilhão de problemas, registram Nine Lives, lançado em 1997 e com a produção de Kevin Shirley. O disco começa lá em cima, com a sensacional faixa-título, e possui momentos magníficos, como as pancadas "Crash" e "Something's Gotta Give",  o hardzão animalesco tendo a harmônica em destaque, e a pesada "Attitude Adjustment". A ótima "Taste Of India", utilizando o instrumento  sarangi, a cargo de Ramesh Mishra, e cordas misturados a muito peso, é fácil a melhor do disco. 

Nine Lives é marcado por mais alguns sucessos: "Falling in Love (Is Hard On The Knees)", embalada pelos metais arranjados por Tyler junto a David Campbell (músicos não citados); o rock grudento de "Pink", outra composição ao lado de Supa; a balada "Hole In My Soul", com um interessante arranjo de cordas por Elliot Scheiner. O álbum peca em ser um pouco longo, algo que era praticamente uma exigência da mídia CD na época, e daí vem "The Farm" e os 8 exagerados minutos da balada "Fallen Angels" (também composta em parceria com supa, e que o final meio "Kashmir" ainda vale), e que talvez seja o maior pecado aqui, o excesso de baladas, já que além de "Fallen Angels" e "Hole in My Soul", temos "Ain't That A Bitch", "Full Circle", e "Kiss Your Past Good-Bye",  todas muito similares entre si. 

Capa alternativa do álbum

Se desse uma enxugada, seria um disco melhor. Essas são as 13 faixas originais do disco. Aos completistas, há diversos formatos no mercado, com bônus diferentes. As mais notáveis são a japonesa, com as canções inéditas "Falling Off", cantada por Perry, e "Fall Together", e a brasileira, com os bônus "Falling Off" e "I don't Want To Miss A Thing". Cinco milhões em vendas no total, o que foi considerado um fracasso perante os 20 de Get a Grip

O nome é uma homenagem ao próprio grupo, que já tinha passado pelos altos e baixos, e sobrevivido como um gato (nos países de língua inglesa, o gato tem 9 vidas, e não 7 como aqui). A capa original acabou sendo substituída por conta de manifestações da comunidade hindu, que atribuiu a imagem de Lord Krishna (com cabeça de gato e peito feminino) dançando sobre a cabeça da cobra demônio Kāliyā, muito ofensiva, e assim, virou a do gatinho.  É considerado pelo site Ultimate Classic o pior disco da banda, o que acho um certo exagero, apesar de honestamente ele estar no meu Top 3 dos mais fracos do grupo.

O ao vivo A Little South of Sanity registra a fase mais bem sucedida do grupo

A banda embarcou em uma turnê de dois anos, registrada no ao vivo A Little South of Sanity (1998), ganhou um Grammy por "Pink" e finalmente, em 1998, conquistou seu primeiro (e único até hoje) number 1, com "I Don't Want to Miss a Thing", a qual merece um parágrafo a parte. Ela foi gravada exclusivamente para o filme Armageddon (1998), com participação de Liv Tyler, assim como "What Kind of Love Are You On" e uma nova versão para "Sweet Emotion". 

Single de "I don't Want Miss a Thing"
É uma composição de Diane Warren, e o seu single vendeu a incrível marca de 1 milhão e 200 mil cópias no Reino Unido, superando o 1 milhão de cópias do mercado americano. A marca de vendas pelo mundo superou 5 milhões, ou seja, o single vendeu o mesmo que o álbum antecessor. Por isso, a canção acabou sendo incluída na versão brasileira, apesar de que no estrangeiro, você só encontrará ela ou no single ou na trilha de Armageddon, o que faz da versão nacional (e a argentina também) um atrativo para os consumidores de fora do país.

Modernizando o som em Just Push Play

Depois de um período de três anos, em 2001 chega às lojas Just Push Play. Esse é um álbum um tanto quanto experimental em comparação ao seu antecessor, e apenas com 30% de baladas. 

Em um total de 12 canções, "Avant Garden", leve canção semi-acústica, "Fly Away From Here", com o belo piano de Jim Cox e a participação de Paul Santo nos teclados, "Jaded" e "Luv Lies" são as representativas da melosidade, com "Jaded" sendo o grande sucesso do disco. Porém, é o peso de "Beyond Beautiful", com um belo solo de Perry, e os eletrônicos que aparecem na faixa-título, canção na qual Tyler empunha também as seis cordas, e faz vocalizações em dialetos da Jamaica, que chamam a atenção. 

A capa dá indicativo de eletrônicos, com a versão robótica de Marilyn Monroe, e é na percussão principalmente que eles se sobressaem em algumas faixas, mais precisamente em "Drop Dead Gorgeous", que conta com Perry nos vocais, e as programações de Paul Caruso, "Under My Skin" e "Outta Your Head", uma faixa lunática com Tyler cantando como se fosse um rap, misturando batidas de hip hop e muita distorção. Curiosamente, essas são as músicas que mais agradam, junto de "Light Inside", canção crua, pegada e rocker na medida certa. 

Tom Hamilton, Brad Whitford, Steven Tyler, Joe Perry and Joey Kramer
of Aerosmith no Rock and Roll Hall of Fame, em 19 de março de 2001.
 

"Sunshine" e "Trip Hoppin'" são canções que pouco chamam atenção, a última com participação dos metais, a cargo da Tower of Horns e de Dan Higgins (clarinete e saxofone) e com bom embalo. Os arranjos de cordas de Just Push Play ficaram a cargo de David Campbell ("Beyond Beautiful", "Fly Away From Here", "Jaded") e Jim Cox ("Avant Garden", "Luv Lies", "Sunshine" e "Under My Skin"). Perry já atestou que acha esse o pior disco do Aerosmith, muitos fãs torcem o nariz, e entre mortos e feridos, realmente é uma das últimas opções que sugiro para os que não conhecem Aerosmith adquirir.

Entram na Hall of Fame do Rock 'n' Roll em 2001, exatamente quando "Jaded" alcançou a primeira posição nas paradas americanas. Algumas coletâneas saíram nessa época, em especial Young Lust: The Aerosmith Anthology (2001), Classic Aerosmith (2002) e O, Yeah! Ultimate Aerosmith Hits (2002), esse último com a inédita "Girls of Summer", mais uma para entrar na lista de baladas do grupo.

O álbum de covers Honkin' on Bobo

Passados mais três anos e Honkin' on Bobo (2004) é lançado. Esse é um álbum de covers das raizes bluesísticas do quinteto, acompanhado de Paul Santo (piano, piano elétrico, órgão), e trazendo onze versões muito particulares para canções do blues que marcaram época.  Há participações especiais de Tracy Bonham (vocais em "Back Back Train", dividindo com Perry, e "Jesus Is on the Main Line", um coral tradicional acompanhado pela steel guitar de Perry), Johnnie Johnson (piano em "Shame, Shame, Shame" e "Temperature") e The Memphis Horns (metais em "Never Loved a Girl"). 

As faixas que mantiveram a linha blues foram "Back Back Train", com a já citada dupla vocal de Perry e Bonham, "Eyesight to the Blind", com um show de Tyler na harmônica, "Never Loved a Girl", com Tyler ao piano e o marcante órgão de Santo, e "Temperature", mais um espetáculo da harmônica de Tyler. "I'm Ready" e "Road Runner" são versões amenas e de pouco destaque no contexto geral. Já as versões mais legais são de "Shame, Shame, Shame", que virou um rockzão dos bons, a pegadaça "Baby Please don't Go", a totalmente reinventada "You Gotta Move" e a surpreendente recriação do clássico de Peter Green no Fleetwod Mac, "Stop Messin' Around", cantada por Perry e com uma introdução fabulosa da harmônica e guitarra duelando. 

O bom ao vivo Rockin' the Joint

Além das covers, vale pela inédita "The Grind", uma bela balada bluesy. No geral, é mais essencial e agradável que seus dois antecessores, e seu posterior também. Na sequência desse disco, foi registrado no Hard Rock Joint de Las Vegas o CD e DVD ao vivo Rockin' the Joint (2005), trazendo canções de diversas fases da banda, e é o último ao vivo da banda até o momento. 

O grupo volta ao Brasil para uma única apresentação no Morumbi, em 2007. Antes, Tyler passou por uma cirurgia na garganta, Hamilton saiu temporariamente para um tratamento para câncer de garganta, sendo substituído nos shows por David Hull, a coletânea Devil's Got a New Disguise: The Very Best of Aerosmith, trazendo duas novas faixas ("Devil's Got a New Disguise" e "Sedona Sunrise"), tudo isso em 2006. Em 2008 lançam a versão do game Guitar Hero: Aerosmith, a primeira exclusiva para uma banda.

Aerosmith em Porto Alegre, 2010

Um fato interessante e lamentável foi que Tyler chegou a sair da banda no final da primeira década do século XXI. Tudo começou em agosto de 2009, quando o vocalista caiu do palco durante "Love In An Elevator" em um show em Buffalo Chip, nos EUA, com Tyler quebrando o ombro e cancelando parte dos shows do Aerosmith. Começou uma briga interna entre ele e Perry, que inclusive chegou a ter um anúncio extra-oficial de Lenny Kravitz como novo vocalista do Aerosmith, o que nunca se confirmou. 

Felizmente, tudo se resolveu e em 2010, ao Brasil para shows em Porto Alegre e São Paulo, na turnê Cocked, Locked, Ready to Rock Tour, que também passou pela Colômbia e Perú, onde o grupo pisou pela primeira vez. O grupo voltou ao Brasil diversas outras vezes nessa década. Veio mais uma coletânea, Tough Love: Best of the Ballads, em 2011, e finalmente, o novo álbum no ano seguinte.

Último álbum da banda até o momento

Somente após 8 anos, depois de muitos intempéries, o grupo conseguiu finalmente lançar seu décimo quinto álbum de estúdio, o primeiro em 11 anos. Em Music from Another Dimension! há uma quantidade grande de participações especiais, das quais vou destacar três apenas: Julian Lennon, fazendo os backing vocals da pesada "Luv XXX"; Rick Dufay fazendo a guitarra base em "Shakey Ground"; e Johnny Deep, fazendo os backing vocals de "Freedom Fighter". É um álbum que tenta resgatar o estilo de compor da época de Pump e Get a Grip, mas trazendo aquelas inspirações Zeppelianas dos anos 70. Claro, as baladas Aerosmithianas também estão nele, na verdade, em quase 50% do material. 

Elas são "Another Last Goodbye", com Tyler ao piano e um arrepiante violino, "Can't Stop Lovin' You", um dueto de Tyler com a cantora de country Carrie Underwood, "Closer", "Tell Me" (Tyler ao mandolim), a grudentíssima "What Could Have Been Love" e a linda "We All Fall Down", fácil uma das canções mais belas que o grupo gravou. 

O grupo nos anos 2010

Os rocks com inspirações setentistas estão em "Lover Alot", lembrando um pouco o estilo de "Draw the Line", "Oh Yeah", "Out Go The Lights", essa exagerando nas vocalizações femininas, e no hammond de "Something", cantada por Perry e com Tyler na bateria. O estilo de Tyler cantar "Beautiful", quase como um rap, remete-nos aos anos 80, sendo que nessa ele também toca guitarra. As melhores faixas são a viajante "Legendary Child", com fortes referências ao Led, o peso de "Freedom Fighter", outra com os vocais de Perry, e a pancada "Street Jesus", veloz e arrebatadora. A versão em vinil vermelho transparente, acompanhado de um CD, é muito bonita, e vale a pena a aquisição para a coleção.

Bela versão em vinil vermelho transparente do último álbum


O grupo vem divulgando notícias de uma turnê de aposentadoria. Desde 2012, foram realizadas várias turnês, mas nada de novo foi lançado. Fica a expectativa para o que pode acontecer nos próximos meses, e a certeza de que essa é uma das discografias mais valiosas e vendidas na história da música mundial.
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