terça-feira, 22 de maio de 2018

A Dura Vida dos Colecionadores No Brasil




Colecionar discos é um hobbie bastante comum no mundo todo. Vários blogs, sites e páginas de redes sociais são dedicadas para tal, algumas com mais destaque, como por exemplo, o excelente canal Discogs, o qual conta atualmente com mais de 500 mil usuários de todo o mundo, e é um dos mais confiáveis e completos sites de catalogação, compra e venda de discos. E claro, a audição de uma determinada obra, aquele momento para você relaxar, cavucar informações ou apenas curtir o momento em que a música sai das caixas de som, são alguns motivos que fazem com que esse número seja tão expressivo. Fora que mostrar para um amigo AQUELE disco, sempre faz bem para o ego.

Colecionador com orgulho de sua coleção

Os brasileiros, obviamente, estão presentes nesses usuários e nesses blogs, sites e páginas citados acima. Nós mesmos, na Consultoria do Rock, representamos uma pequena fatia do mercado nacional que coleciona e compartilha a paixão pela música, sendo que, conforme apresentado na coluna Na Caverna da Consultoria, todos os colaboradores do site possuem uma coleção de discos, uns mais, outros menos.

Porém, nos últimos anos, a coisa tem ficado complicada para os colecionadores de discos aqui no Brasil. Em especial, na década atual, várias são as reclamações e desilusões de brasileiros colecionadores de discos. No último ano, os problemas agravaram-se tanto que diversos amigos próximos e/ou virtuais, que colecionavam com paixão e avidez, acabaram "cansando" e entregando-se para a ociosidade de apenas manter em dia, e com "saúde", sua coleção no ponto que está, desistindo de buscar aquele disco em um garimpo ou em um site.

Um dos melhores momentos quando se tem uma coleção de discos

Esse texto vem fazer um desabafo pessoal, pois sinto-me cada vez mais incluído no grupo de colecionadores brasileiros que, apesar de ainda estar caçando e comprando discos com regularidade, vêm encontrando obstáculos cada vez maiores para manter a sua coleção, e quiçá ampliá-la como queria.

Irei basear a minha justificativa de obstáculos em quatro pilares fundamentais, os quais são: não existem mais lojas físicas especializadas, em boa quantidade, como antes; a desorganização das lojas, unida a muitos vendedores desonestos; preços mirabolantes; o serviço dos Correios.

Tentarei fazer um comparativo com o mercado internacional, e claro, deixo os comentários em aberto para aqueles que quiserem contribuir com mais justificativas para a coleção estar "conturbada", desabafar contra algum desses obstáculos, ou discordar de tudo o que vou escrever. E quero ressaltar que o que virá abaixo será baseado em experiências pessoais, de um colecionador que compra em média de 200 a 400 discos por ano - ainda - mas que vem se desiludindo bastante em manter a coleção por conta dos motivos citados acima, e que vou comentar um pouco mais sobre eles a partir de agora.





Ausências de lojas físicas

Nos anos 90, com a decadência do vinil e o boom do CD, o Brasil viu surgir inúmeras lojas físicas especializadas em vendas de CDs, e também em repasse de vinis. Lançamentos em LPs eram colocados em saldos e engradados de cerveja, a preços de banana. Lembro que comprei álbuns como o Live at Donington (vinil triplo do Iron Maiden), Counterparts (Rush), assim como alguns Santanas do final dos anos 70, o The Division Bell (Pink Floyd), Cross Purposes (Black Sabbath) entre outros, por 50 centavos, no máximo 1 real. CDs importados eram raridades por aqui, e o próprio CD não era algo tão fácil de se comprar (legal era alugar o CD em uma loja de alugueis e gravar em K7).

No início dos anos 2000, as lojas começaram repentinamente a valorizar novamente o vinil. Demorou um tempo (praticamente toda a primeira metade da década passada) até que o vinil conseguisse um lugar nas prateleiras de vendas com certa apreciação, mas o CD ainda era algo presente nas maiores das lojas especializadas. O problema é que essas lojas começaram a minguar rapidamente. Alguns exemplos claros que aconteceram comigo. Nasci e cresci em uma cidade (Pedro Osório) de pouco mais de 8 mil habitantes. Lá, na década de 90, havia uma loja especializada em vendas de discos. A cidade grande mais próxima, Pelotas, tinha no mínimo cinco grandes lojas de discos no final dos anos 90 (Trekos, Beiro, Zé Carioca, Studio CDs e Multisom), fora outras que vendiam LPs e CDs, apesar de não serem especializadas em tal. E tudo isso em menos de cinco quadras.


Lojas físicas estão cada vez mais vazias, e escassas

Pois já na década seguinte, a tal loja de Pedro Osório fechou. Trekos e Beiro mudaram as atenções para outros produtos (a Beiro fechou em seguida), e Zé Carioca, Studio CDs e Multisom, apesar de ainda existirem, já não conseguem sobreviver somente com venda de discos, tendo que apelar para outros produtos, como eletrônicos, celulares ou revistas. Para piorar, recentemente a Multisom, talvez a maior loja com venda de discos no Rio Grande do Sul, anunciou que a partir de 2019 não irá mais vender CDs, devido a baixa procura e ao novo modo de consumir música, através dos streamings. Um choque para quem ainda conseguia vasculhar as promoções da loja.

Ao mesmo tempo, na segunda metade da década passada, tive a oportunidade de ir diversas vezes ao Rio de Janeiro e São Paulo, e posso afirmar tranquilamente (e com pesar) que em menos de três anos (entre 2006 e 2009), muitas lojas de discos fecharam. Destaque especial para as tradicionais Modern Music (Rio) e Nuvem Nove (sampa), lojas gigantescas em termos de material, e que deixaram órfãos muitos colecionadores. A Galeria do Rock migrou de inúmeras lojas de discos para várias lojas de skatistas ... O mesmo posso dizer de Porto Alegre, tradicional cidade de lojas de discos, que viu fecharem (ou readaptarem-se) lojas tradicionais como a Zeppelin e a já citada Multisom, e minguarem os CDs em locais como Americanas, Saraiva e Cultura.


A Galeria do Rock já foi símbolo de grandes lojas em nosso país

Ainda há alguns sebos nessas cidades e em tantas outras citadas, que se tornaram locais de encontro dos colecionadores, mas são cada vez mais raros os frequentadores, que se tornaram muito restritos nas compras musicais, e também o giro de mercadoria nesses sebos. Ao mesmo tempo, as lojas de vendas de LPs importados nasceram do nada, mas com expectativa de vida baixa. Afinal, o alto preço dos produtos, e a pouca busca, faz com que os donos não consigam sustentar se quer o aluguel do prédio onde tem a loja, apenas com a venda dos discos.

Em uma matéria do site de entretenimento da Uol (buuuuuuuuuuuuuuuuuh), há cinco motivos para ainda se frequentar lojas: "Descobertas são mais democráticas", "Você pode conhecer pessoas", "A sabedoria dos gurus","Rola música boa" e "Mergulho no passado". Concordo que esses motivos até são válidos, mas hoje em dia, achar lojas de discos que tenham essas características com qualidade não é fácil, e para piorar, a maioria dos sebos sofre de uma desorganização absurda, e que vai de encontro ao segundo fator que vejo prejudicar as coleções.


Lojas desorganizadas e vendedores desonestos

Claro que ainda há os velhos lojistas conhecidos, que conversam com o freguês, apresenta novidades e dão um desconto legal. Assim como lojas organizadas, com discos separados por estilos, em ordem alfabética, algumas por artista, etc. Mas vejo, em minhas experiências de garimpo, que isso não é mais tão comum. 

Colecionador "sujando as mãos" em busca 

do garimpo perfeito

Recentemente, em um sebo de Florianópolis, encontrei um vendedor que não tinha os preços dos discos indicados em local algum. Era necessário mostrar o disco (CD ou LP) para o lojista e ele indicava o preço. Até aí, nada tão anormal. Mas geralmente, o que esperamos é que o lojista avalie pelas condições do disco. Pois esse foi no Mercado Livre, olhou os preços que estavam cobrando no site e estabeleceu um valor médio como o valor do disco que eu escolhi (um Ultraje A Rigor, que ele cobrou R$ 40,00). Fiquei indignado, e mais ainda quando ao reclamar em um grupo de colecionadores do Facebook, vários foram os participantes do grupo que trouxeram reclamações similares de outros vendedores pelo país.




Fala sério, não tem cabimento! Para piorar, esses mesmos vendedores, em lojas físicas, também são muito desorganizados. São raros os locais onde você entra e consegue ver uma organização dos discos, seja por ordem alfabética ou por estilos. Os discos na maioria das vezes podem até ser associados com estilos (rock, cantores/as nacional, música clássica ...), mas são amontoados em engradados ou caixas, sem uma ordem ou critério. Muitas vezes, o estado dos plásticos dos LPs é de uma sujeira tamanha que uma simples "folhada" nos vinis deixa a ponta dos dedos preta. Isso considerando que o lojista coloca plástico nos vinis. Os CDs ficam alojados apenas com o nome do artista e do álbum, um sobre os outros. Para poder conferir o encarte e a mídia, é necessário retirar os que estão sobre o que você quer pegar. Isso quando não tem aquele cheirão de mofo ou até mesmo urina de rato.

Discos organizados por artista, sonho de todo colecionador em um sebo
Sim, há vários sebos que são ótimos de se garimpar, com uma bela organização, ambiente adequado, plásticos novos (não vou fazer merchandising de nenhuma loja aqui, mas posso indicar nos comentários, e aceito indicações também), mas o que vejo nas buscas por discos país a fora é cada vez mais amontoados de LPs e CDs, e "te vira" para catar algo no meio de Xuxas, discos de novela e música clássica, e mais outros lançamentos que na maioria dos casos não são atrativos.

Lamentáveis exemplos da desorganização de alguns sebos


Bom, mas superada essas desavenças, você decide encarar o monstro, e começa o "garimpo". Daí encontra, no meio de muitos discos detonados, um belo exemplar de, por exemplo, o disco Thriller (Michael Jackson). Eis que surge o terceiro motivo para afastar os colecionadores de continuar sua coleção.


Preços mirabolantes

Eis que você leva o Thriller, um dos discos mais vendidos da história, e que se encontra praticamente em tudo o que é sebo, em direção ao lojista, e pergunta o preço. Resposta: R$ 40,00; R$ 50,00; talvez até R$ 100,00 reais. Como disse no início desse texto, há menos de 20 anos, o vinil era "moeda de troca" nas lojas. Hoje, com essa fase "bonita" do retorno do vinil, os lojistas mudaram os olhos para os LPs, e os preços estão subindo exorbitantemente. E para piorar, os preços dos CDs estão seguindo o mesmo caminho.

Discos raros, e realmente caros
Não é só o disco do Michael Jackson que citei. Álbuns de novelas, tão menosprezados há tão pouco tempo atrás, estão tornando-se mais caros do que algumas joias. A versão original de A Gata Comeu Internacional, com "Crazy for You" (Madonna), em bom estado, não sai por menos de R$ 300,00. Esse era o preço de um Tim Maia Racional na década passada!! Discos de Arnaldo Baptista, Mutantes, os primeiros Rita Lee, que tinham um valor aceitável (até R$ 100,00) hoje não se acha por menos de R$ 400,00 em bom estado. A fase Racional de Tim Maia, a fase psicodélica de Ronnie Von, isso subiu para valores próximos a 1 K. E não são somente os discos de artistas brasileiros. Caros de verdade eram o Louco por Você (Roberto Carlos), Paebirú (Lula Côrtes e Zé Ramalho), Let Me Sing, Let Me Sing (Raul Seixas), Sua Música, Sua Interpretação (Gilberto Gil) ou On Stage (Jorge Ben), que no início dos anos 2000 já superavam os R$ 1000 reais, e hoje aproximam-se da ordem de 10 K em suas versões originais.

Álbuns como os do Black Sabbath pós-Dio, em lançamentos de vinil, tornaram-se "raridades" com valores acima de R$ 100,00, sem encarte e em estado duvidoso. Cross Purposes e Forbidden, os dois últimos lançamentos em vinil, não baixam de R$ 300,00, quando se acha. Algo que era mais fácil de se encontrar em loja do que bala de leite em mercadinho de esquina. Muito disso se deve ao fato de que algum esperto percebeu que lá fora, os colecionadores estavam comprando os vinis lançados no Brasil a partir da década de 90, já que nosso país foi um dos poucos a seguir lançando discos em LP com regularidade, até 1996, e isso fez com que os preços subissem.

Mas daí, vamos olhar os vendedores de discos no site Discogs, e ver principalmente os preços de qualquer LP brasileiro vendido por um brasileiro. São raros aqueles que custem menos de 10 euros. Para piorar, a classificação da capa e da mídia (os famosos VG+, NM, entre outros) não condizem com a realidade. Tive a oportunidade de vender para o exterior algumas vezes, e os compradores de lá sempre reclamam de que o que o brasileiro coloca como classificação não condiz com a realidade. O vendedor internacional, ao dizer que a capa é VG+ (Very Good +) leva em consideração que a capa está praticamente intacta, sem riscos, sem desgaste. Aqui no Brasil, um VG+ é uma capa assinada por 5 donos diferentes, um belo rasgo na lateral e ainda faltando um pedaço da contra-capa ... E o disco irá custar 30 euros.

Esse lote de discos, em estado duvidoso, vai ser oferecido, no ML, por quase R$ 500 reais

Não vamos longe, e nosso tradicional Mercado Livre também está passando por isso. Lojistas colocam preços altos em CDs e LPs que se tornam referência para outros lojistas, e assim, aquele Legião Urbana que você achava todo dia por 3 pila, agora sai 30. Outro fato que ajudou a alavancar os preços foi o retorno do lançamento de vinis. As novas edições não saem por menos de 80 reais, em média. Então, do ponto de vista do lojista, se o cara paga 80 em um relançamento, certamente vai pagar 200 no original.

Ok, posso estar exagerando, mas é decepcionante ver que discos comuns estão custando uma fortuna, e que aquela raridade que você juntou moedas para comprar, quando vai novamente comprar está o triplo. Mas tudo bem, de alguma forma, você superou as adversidades. Cavucou no garimpo virtual do Mercado Livre (ou outro site nacional de vendas) ou foi em busca de um e-bay ou Discogs (até amazon) da vida e achou o seu disco por um preço justo e com uma qualidade aceitável. Eis que surge nosso quarto motivo para abandonar a coleção.



Os Correios

Esse tem sido o mais dramático dos motivos para se abandonar a coleção. O mercado virtual cresceu enormemente na década atual. Pessoas do mundo inteiro estão usufruindo de sites de compras para adquirir produtos, os mais diversos possíveis. No Brasil, em apenas cinco anos, segundo pesquisa da Rede Globo, o número de compras brasileiras em sites triplicou. Desde móveis e eletrodomésticos até bazar e armarinho, tudo é comercializado em grandes números por sites e redes sociais, e, quem entrega esses produtos comprados online, aqui em nosso país, são Os Correios.

Só que a empresa que já foi símbolo de qualidade aqui no Brasil, presente em todos os municípios brasileiros, e com mais de 350 anos de tradição, tem causado uma decepção atrás da outra para os clientes, e principalmente, colecionadores. No mesmo grupo de colecionadores do Facebook que citei antes, o qual consta com mais de 18 mil membros, somente esse ano contei mais de 100 reclamações de demora na entrega de discos comprados, e não só do exterior, mas também de compras atrasadas feitas DENTRO DO Brasil, o que é inexplicável. Junta-se isso, uma enorme quantidade de extravios, ou melhor, "extravios" (veja essa reportagem para entender o que estou falando).



Demora na entrega e "extravios" tem causado indignação de colecionadores

Pegando os produtos importados, todos, ao chegarem no Brasil, passam por uma vistoria da Receita Federal, para sofrer taxação ou não. Se sofrer taxação, o valor do produto pode superar mais de 100% o valor pago. Mas ainda não são tantas as taxações em discos. Inclusive, o deputado João Daniel, do PT de Sergipe, está entrando com um projeto pedindo isenção de impostos federais e contribuições sociais para importação de discos, aparelhos toca-disco e acessórios. 

O problema principal então é o tempo de entrega, e os extravios. Aqueles discos que são rastreados, quando liberados da tributação para entrega, tem um prazo de 40 dias úteis para serem recebidos pelo destinatário. Só que esses 40 dias úteis tem transformado-se em quase seis meses. E os não rastreados, bom, esses têm desaparecido e não sido recebidos pelo destinatário. O colecionador, frustado por ter gastado seus poupados dólares (ou libras, ou euros), vai se desiludindo, até que não compra mais.



Memes sobre os constantes atrasos dos Correios em entrega de produtos


Os Correios colocam a culpa na grande quantidade de compras. Uma média de 200 mil pacotes por dia atingiu 400 mil pacotes por dia em novembro de 2017, sendo que atualmente, a média é de 300 mil pacotes por dia, recebidos no Centro de Distribuição dos Correios em Curitiba. Desses, 100 mil são destinados quase que diariamente para a população do estado de São Paulo. Por isso, o atraso acaba ocorrendo. Os Correios estão tentando buscar soluções, como um aluguel de um imóvel dentro do Aeroporto Internacional de Guarulhos, que agilize o procedimento de recebimento e vistoria pela receita federal, mas não há prazo para que isso se concretize.

Para piorar, como o vendedor do exterior em sua maioria é honesto, com a grande quantidade de reclamações brasileiras de não recebimento de seus pacotes, devolve o dinheiro, mas não envia mais nada para o Brasil, ou irá enviar somente nas modalidades mais caras de frete (com rastreamento e seguro), tornando o valor de frete para um simples CD próximo a 30 reais. Sem contar que o próprio frete no nosso país, é um absurdo. Um frete de um PAC que vai de Porto Alegre a Boa Vista (3792 km) custa R$ 100,00 reais e leva um mês para ser entregue. Se for por Sedex, o valor vai a R$133,80,  e o prazo diminui para 2 dias. Pegando os Estados Unidos como exemplo, uma encomenda tipo Sedex por lá, que vá de Nova Iorque até San Francisco (4133 km) demora os mesmos 2 dias, mas custa apenas 20 reais, no máximo!!!



Postagens no Facebook, falando sobre entrega de discos com atrasos inacreditáveis

Seguindo nessa comparação Brasil / Exterior, volto para o número de lojas especializadas. Parece que por lá também está diminuindo, mas não com tamanha intensidade como aqui no Brasil. E, ao contrário de nosso país, os sebos ainda permanecem na ativa. Tive a oportunidade de conhecer belos sebos na Europa (Bélgica, Espanha, França, Grécia, Holanda e Itália), todos com produtos em boas condições e com preços honestos para a qualidade do que estava sendo exposto. Dá vontade de levar as lojas inteiras. A organização dos discos, a limpeza, a conversa com o dono, são atributos que em quase tudo o que fui de loja pude verificar em uma qualidade muito acima de nosso país. Mas, se comprarmos muitos discos, corremos o (grande) risco de sermos taxados quando voltarmos ao Brasil, o que também vem acontecendo com relativa frequência.

Ao mesmo tempo, conversando com vendedores do exterior, é notável a diferença na forma de venda dos discos. Detalhes como a edição que está sendo vendida, se é relançamento ou não, se é um disco que está arranhado ou com capa rasgada, encarte faltando, enfim, há uma honestidade muito grande, para garantir que o comprador está levando exatamente o que ele quer para sua coleção, e não fazer com que o mesmo saia frustrado ao levar um disco que ele procurava com capa tripla e encarte, na versão capa simples e sem encarte.



Postagens com reclamações de entregas dos Correios

Enfim, teria outras questões para abordar, mas deixo o espaço dos comentários para podermos ampliar essa discussão, e claro, aqueles que discordarem de mim, fiquem à vontade para jogar as pedras. Repito que ainda há locais interessantes para comprar discos no Brasil, que um bom garimpo ainda dá para ser feito em locais específicos, só que isso vem diminuindo quase que exponencialmente. Por favor, não deixem de opinar. Afinal, sou só eu que sinto-me um colecionador frustrado em nosso país?

segunda-feira, 14 de maio de 2018

El Efecto (Santa Maria, 11 de maio de 2018)



"Duas coisas bem distintas, uma é o preço, outra é o valor". Nunca antes na história do Brasil a famosa frase do grupo El Efecto fez tanto sentido quanto no show realizado pelo grupo carioca na noite do último dia 11 de maio, na cidade de Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul. Divulgando seu mais recente álbum, Memórias Do Fogo, a turma do Rio de Janeiro desembarcou em terras gaúchas para três apresentações (Novo Hamburgo, Santa Maria e Porto Alegre). 

No coração do Rio Grande, o Rockers Soul Food foi o responsável por receber Tomás Rosati (voz, cavaquinho e percussão), Bruno Danton (voz, violão, trompete), Eduardo Baker (baixo), Cristine Ariel (guitarra, voz, cavaquinho), Tomás Tróia (guitarra, voz) e Gustavo Loureiro (bateria), acompanhados ainda de Aline Gonçalves (flauta, trompete). Um local acanhado, com capacidade para no máximo 400 pessoas, e que realmente, foi pequeno para abrigar a energia e a sede de tocar do hepteto, e também para comportar a legião de fãs que vem sido conquistados ao longo dos 16 anos de carreira da banda, e que em Santa Maria, lotaram o Rockers em uma noite inesquecível na cidade.



Antes, teve a abertura local do grupo Guantánamo Groove. Formado por Gustavo Garoto (guitarra/voz), Yuri ML (baixo/voz) e Vagner Uberti (bateria). Eles estavam acompanhados de um percussionista e um trombonista, que infelizmente não descobri o nome, mas que deram um baita gás para encorpar o som da banda. Fizeram uma bela sonzeira, honrando o groove que tem em seu nome, e levantando a galera. Confesso que senti-me transportado para o início dos anos 70, em algum pequeno bar de Nova Iorque, onde rolavam sons fantásticos de grupo como Chicago Transity Authority ou United States of America. 

Em uma hora de apresentação, somente com canções autorais, chamou-me a atenção a harmonia musical do conjunto, que já tem feito seu nome na região de Santa Maria e acabou de lançar seu primeiro álbum, Okupa (2016), e também para o grande guitarrista que é Gustavo, com solos ácidos e recheados de muito feeling. Dentre as 11 canções apresentadas pelo grupo, destaques especiais para "Contracorrente", "Saiba Ver O Sol", "A Do Leonel" e principalmente "Itaimbé" e "Satisfação Total", mas no geral, todas as faixas foram muito animadas. A ginga do trombone faz uma baita diferença, e somada com uma guitarra afiada e grandes arranjos vocais, casou perfeitamente para esquentar a plateia ao grande show da noite.



Eram duas da manhã quando o hepteto subiu no pequeno palco. A banda ficou um tanto quanto apertada, já que levaram todos os seus instrumentos para tocar. A presença da nova guitarrista da banda, Cris Ariel, levou Bruno (o guitarrista original) para ficar concentrado no violão, mas no fundo, podemos afirmar que a El Efecto agora está com três grandes guitarristas, pois o violão de Bruno possui distorções colocadas com precisão em várias faixas.

O show foi baseado no último álbum, e de cara, o show começou com a sensacional "O Drama da Humana Manada". O cavaquinho de Tomás ferveu e incendiou a galera, e a partir dali, todos os presentes sabiam que iam ser tomados por um show energético e muito virtuoso. Samba, rock pesado, chorinho, reggae, tango, enfim, o grupo sabe misturar os ritmos como ninguém, são todos exímios instrumentistas, Bruno e Tomás possuem interpretações vocais impressionantes, e as letras são para ficar na memória, tanto que tem sido usadas para estudo em diversas faculdades do Brasil à fora. 



"O Drama da Humana Manada" foi cantada a plenos pulmões pelo presente, o que me assustou positivamente, já que o álbum foi lançado a menos de dois meses, mas isso demonstra que a El Efecto está conquistando seu espaço cada vez mais. Na sequência, veio "Pedras e Sonhos", do grande disco homônimo de 2012, e que foi o responsável por finalmente fazer com que a El Efecto chegasse aos meus ouvidos. Um dos grandes sucessos da carreira do grupo, fez tremer o piso do Rockers, e foi facilmente cantada e ovacionada pelos fãs. 

Nesse momento da apresentação, foi legal ver a dinâmica do palco da El Efecto. A alteração dos instrumentos, e do posicionamento entre Bruno e Tomás, bem como a energia exalada pelos dois, é contagiante. Mesmo tendo feito uma longa viagem entre Novo Hamburgo e Santa Maria, e com o show entrando madrugada adentro, os dois estavam inteiraços. Veio mais uma do disco novo, a ótima "Café", na qual o violão e as vozes bem arranjadas foram as principais atrações, assim como a participação da plateia auxiliando nas vozes.



Com a plateia dominada, a El Efecto pôde variar seu repertório, voltando a Pedras e Sonhos para apresentar "N'aghadê", outra bela letra, criticando a televisão, e com um ritmo dançante que colocou os presentes a bailar. "O Monge e o Executivo", de Memórias do Fogo, foi um espetáculo a parte. Recheada de variações, essa foi um atestado da complexidade musical da obra da El Efecto, e de como fica difícil classificar o som que eles fazem. Só vendo para acreditar no som que os caras conseguem fazer, e tentar entender como os arranjos musicais são construídos e interpretados com tamanha precisão, é obra para doutores de música. Que música linda, e que obra sensacional. 

Veio mais três do disco novo, a intrincada "Trovoada", com sua letra forte, um maravilhoso trecho onde os metais se sobressaem, bem como as inspirações africanas na harmonia musical, a paulada "Incêndios", metaleira das boas para quebrar pescoços e fechar roda punk (algo que aconteceu fácil no Rockers), e "Carlos e Tereza", essa última com uma homenagem para a vereadora Marielle Franco, que emocionou a banda e os presentes, para então, entrarmos na reta final da alucinante apresentação do grupo.

Eram pouco mais de três da manhã quando Tomás perguntou se a plateia tinha fôlego para mais. Com uma gana imensa de assistir a El Efecto, e uma banda afiada e também sedenta para mostrar seu trabalho, a banda arrasou com uma versão pesada e distorcida de "Ciranda". A linda faixa de abertura do disco acústico A Cantiga É Uma Arma (2014) recebeu guitarras pesadas e muito peso, ficando ainda melhor que sua original. Que música absurdamente fantástica, que letra sensacional, sem explicação.

Uma longa e inspirada versão de outro clássico de Pedras e Sonhos, a estupenda "O Encontro de Lampião com Eike Batista", veio a seguir, e foi mais uma que fez tremer o Rockers, e cantada em uníssono até pelo guardador de carros (principalmente nos versos "Eike Eike resistir"). Mais uma aula de habilidade instrumental, criatividade, competência e muita, mas muita energia. Para fechar, outro clássico, "A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador", do primeiro disco da banda, Como Qualquer Outra Coisa (2004), mas na versão de Pedras E Sonhos, e os gaúchos, bem como a banda, deixaram a casa por volta das 4 da manhã, com a sensação de que se houvesse a oportunidade para mais tempo de show, estariam todos ali presentes, para pular e cantar junto desta que considero a melhor banda brasileira da atualidade.


Ainda houve antes (e também depois) da apresentação um tempo para trocar uma ideia com os caras da banda. Tomás e Bruno foram extremamente gentis e simpáticos, assim como o produtor Iuri Gouvêa, responsável pela banquinha de produtos e por ser um dos braços direitos do grupo. Por isso, a frase que abre esse texto, afinal, o preço do ingresso (R$ 15,00 reais antecipado, R$ 25,00 na hora) foi pouco pelo valor da conversa com esses gênios da música brasileira, e também o valor de ver e ouvir ao vivo e a cores um espetáculo de altíssima qualidade. 

Valeu ao El Efecto por ter propiciado uma noite inesquecível, e que em breve, retornem para o Rio Grande do Sul, para trazer ainda mais energia, garra, mas principalmente, talento, competência e qualidade musical. Em um país assolado por atrocidades como Pablo Vittar e cia., ouvir a El Efecto ao vivo é ter certeza que ainda há espaço para surgir boa música em terras brasilis. Há Braços gurizada, e voltem sempre por aqui.

Set list

1. O Drama da Humana Manada
2. Pedras E Sonhos
3. Café
4. N'aghadê
5. Mayombe
6. O Monge E O Executivo
7. Incêndios
8. Carlos E Tereza
9. Ciranda
10. O Encontro de Lampião Com Eike Batista
11. A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Glenn Hughes (Porto Alegre, 28 de abril de 2018)



Ver um show de um grande artista é sempre um momento marcante em sua vida. Ver esse mesmo artista pela segunda vez, apresentando somente clássicos exclusivos da banda onde se consagrou, diante um metro de seus olhos, é ainda mais inesquecível. E foi isso que me aconteceu no último dia 28 de abril, no Bar Opinião em Porto Alegre. Depois de dois anos, pude reencontrar novamente o baixista e vocalista inglês Glenn Hughes, e desta feita, com a turnê Glenn Hughes Performs Classics Deep Purple.

Assisti ao homem em 2015, em um belíssimo show no formato trio, onde além de Hughes, destacou-se o loiro guitarrista Doug Aldrich (Ex-Whitesnake, Dio, entre outros), que tocou muio naquela noite. Fechava o trio o batera Pontus Engborg, e ali, Hughes passeou pela sua carreira solo e pelos trabalhos com Trapeze, Deep Purple e Black Country Communion. Encerrei a resenha daquele ano na expectativa de que a promessa de Hughes retornar a Porto Alegre seria cumprida, e que mais discos eu iria assinar.

Me & Mr Hughes

Isso por que daquela feita, houve um excelente Meet & Greet com The Voice Of Rock, onde ele foi super atencioso, e autografou tudo o que levei. Dessa vez, a EV7 Live, através do produtor Eliel Vieira, fez novamente o meeting, e óbvio que me fui sem piedade, com mais uma leva de discos para assinar. Além de trovar com Hughes, o Meeting prometia a autobiografia recentemente lançada por ele, um pôster, credencial laminada e um tempo de bate-papo com Mr. Glenn, além de fotos.

Mas, nem tudo é perfeito. Se em 2016 apenas 4 aventureiros desembolsaram a grana para trocar uma ideia, pegar uns autógrafos e tirar muitas fotos, em 2018 foram 20 os participantes. Isso acabou diminuindo bastante o contato com Glenn, que não pôde conversar com os fãs como queria. De qualquer forma, nos poucos minutos que estive com ele novamente, ele foi muito atencioso e querido. Uma alma aberta, que te deixa embasbacado com sua gentileza e simpatia. Não autografou tudo que levei (autografou o livro, dois vinis e um CD), mas isso é o de menos. Poder trocar uma rápida fala com ele já valia a noite. Mas ainda tinha a parte sonora. Vale ressaltar que não recebemos o pôster prometido no anúncio do Meeting, mas o produtor Eliel acabou dando em troca um copo promocional da turnê brasileira, o que foi uma atitude no mínimo sensata do rapaz, para o qual deixo meus elogios por sua honestidade.

Glenn Hughes e o Rickenbacker vermelho, em ação

Falando em organização, me desculpa a produtora que trouxe Glenn para o país, mas a agenda ficou no mínimo confusa. Afinal, em 15 dias por terras brasilis, o artista percorreu uma verdadeira maratona, saindo de Brasília (17/05), passando por Belo Horizonte (19/05), São Paulo (21/05), Limeira (22/05), Curitiba (24/05), Manaus (26/05) até chegar em Porto Alegre. Da capital gaúcha, Glenn foi para o Rio, onde se apresentou dia 29/05, e encerrou a turnê em Vila Velha, no dia 01/05. Não seria melhor ter concentrado os shows na região sudeste e encerrado em Manaus, tendo começado justamente pelo sul, já que ele vinha de Buenos Aires? Uma logística bastante confusa, que acabou sendo percebida no palco, já que Hughes por algumas vezes demonstrou cansaço.

De qualquer forma, passado o encontro, era hora de ir para a frente do palco garantir o melhor lugar. Fiquei embaixo do microfone de Glenn, e dali, pude ver de pertinho quando ele subiu ao palco, acompanhado de Søren Andersen (guitarras), Jesper "Jay Boe" Hansen (teclados) e Fer Escobedo (bateria), empunhando o velho Fender dos anos 70, e estourar as caixas de som com uma pancada versão de "Stormbringer" (do álbum homônimo de 1974). O som das caixas Marshall era sensacional, e onde eu estava, de frente para elas, tomava conta do ambiente. 

Jay Boe

Em "Might Just Take Your Life" e "Sail Away", faixas mais calma do aclamado Burn (1974), pude ouvir os teclados e a guitarra, e percebi que o time que acompanhou Hughes tentou chegar o mais próximo das versões ao vivo da Mark III estabelecidas nos clássicos Made in Europe e California Jam. Até as fisionomias e trejeitos eram meio similares. Andersen permaneceu no seu canto, praticamente imóvel, como Blackmore no California Jam. Jay Boe colocava as pernas sobre os teclados lembrando Lord. As costeletas de Escobedo traziam memórias da contra-capa de Made in Europe. Enfim, tudo certinho para termos certeza que o tributo era ao Deep Purple.

Hughes continua com seu vozeirão praticamente intacto, apesar de já não se aventurar com frequência em tons mais altos. Porém, seus falsetes e agudos estão impecáveis. E no baixo, o cara é um monstro. Acredito que atualmente é o melhor baixista vivo de sua geração, e por que não, de todas as gerações. Como é bonito e agradável de ver ele palheteando as cordas sem piedade, fazendo solos como se o instrumento fosse uma guitarra, e sempre com um sorriso no rosto.

Andersen durante seu solo em "You Fool No One"

O show seguiu com Andersen indo para a frente do palco, e depois de um breve e virtuoso solo, puxar o riff de "Mistreated" (Burn). Hughes e sua banda fizeram brotar lágrimas de vários ao meu lado, com uma interpretação raiz, regada de muito feeling e esbanjado emoção. Lindo! Para encerrar a primeira parte do track list, envolvendo as faixas de Burn, Hughes convidou à todos para fazer uma viagem no tempo, e ir ao California Jam de 1974. Então, Jay Boe ficou sozinho no palco, e realmente, levou à todos para os Estados Unidos, já que arrancou os mesmos uivos e barulhos de seu Hammond, aqueles que Lord fez na apresentação daquele evento, durante a clássica "You Fool No One", e também resgatou a clássica hebraica "Hava Nagila", que o mesmo Lord emulou na versão de Made in Europe. De chorar (parte 1)!

Ficou a expectativa da entrada do cowbell de Fer, e quando o mesmo surgiu, a todo o pique, trazendo o riffzão de baixo e guitarra explodindo as caixas de som, o coração pulou de alegria. As viradas, a letra vigorosa, a pegada do riff, tudo sensacional, botando o Opinião a baixo. O solo de Andersen começou com a pegada veloz em uma única nota que Blackmore criou para a canção, e depois seguiu com as palhetadas arrastadas nas cordas que encaminharam para o blues delicioso e chapante que o Deep Purple apresentou ao vivo nos anos 70. Lindo, arrepiante e de chorar (parte 2).

O menino Escobedo, detonando na bateria

Segue "You Fool No One", e quem duvidou que o menino Escobar pudesse fazer um solo de bateria próximo ao que Ian Paice fazia nos shows da turnê de Burn, deve ter segurado o queixo. O guri destruiu. Com uma força nos braços, uma habilidade no bumbo e muita técnica, Fer reproduziu diversos trechos do solo de Paice no Made in Europe, e ainda fez muito mais. Tanto que quando terminou seu solo, foi aplaudido e reverenciado pelo próprio Hughes. De chorar (parte 3).

Encerrada a mais de meia hora de apresentação só com "You Fool No One", Hughes acalmou os ânimos (mas não às lágrimas) dos presentes. Em uma linda homenagem, disse que a próxima música tinha sido composta em parceria com Jon Lord, para quem ele dedicava a mesma. Antes de começar a cantar, ainda disse: "Acho que vou chorar!", e então, Jay Boe puxou o riff de "This Time Around". De arrepiar. Hughes puxou emoção do fundo da alma, e naqueles minutos, até o copo promocional da turnê cedeu-se à uma lágrima.

Hughes, alegre com a apresentação de Porto Alegre
Tomando o fôlego, era hora de sacudir o esqueleto, e continuando na pegada de Come Taste The Band, veio "Gettin' Tigher", agora em homenagem à Tommy Bolin. Nessa, Hughes aproveitou para mostrar ainda mais seus dotes como baixista. O cara é um monstro, e fim de papo! Uma empolgante e surpreendente "Smoke On The Water", nas linhas do California Jam, conduziu-nos para o final da apresentação, com uma embasbacante versão para "You Keep on Moving". Cara, essa faixa me colocou de pernas pro ar. Uma das melhores canções do Purple MK IV, se não a melhor, ali, com O cara cantando ela. Muita emoção, e a certeza de que ter ido no show naquela noite tinha sido uma escolha certa.

Após alguns minutos de mais um, Hughes voltou, dessa vez não empunhando o baixo, que ficou a cargo de um roadie, mas sim apenas segurando o microfone para surpreender novamente, cantando "Highway Star". Essa eu não esperava no repertório, confesso, e honestamente, teria tirado ela para colocar uma "You Can't Do It Right (With The Only You Love)", "Holy Man" ou até a versão completa de "This Time Around" com "Owed To G". Mas paciência, o artista tem o direito a escolher o que vai tocar, e como o encerramento foi com chave de ouro, não tenho do que reclamar.

Essa chave de ouro contou com a presença do lindo Rickenbacker vermelho que Hughes usou na turnê de Burn. Cara, vá se catar. O som daquele velhote é apavorante. Diante das caixas de som do baixo, quando Hughes apenas ligou ele já dava para sentir que a casa ia estremecer. Foi só ele puxar o riff de "Burn" e pronto, não havia como ficar isolado da potência sonora que exalava do palco. Meus olhos tremiam no ritmo do baixo de Hughes, e aquela pesada versão de "Burn" só atestou que é muito raro achar, hoje em dia, um grupo tão forte individualmente e coletivamente como foram as MKs III e IV, assim como a maioria das bandas dos anos 60 e 70.

Fim de espetáculo

O show encerrou com a promessa de mais um retorno, declarações de amor e aquele sentimento de "bebedeira" após pouco mais de duas horas de apresentação, a qual irá ser lembrada pelos presentes não só por sua importância histórica, mas também por terem visto ao vivo e a cores como se faz rock 'n' roll de verdade.

Track list

1. Stormbringer
2. Might Just Take Your Life
3. Sail Away
4. Mistreated
5. You Fool No One
6. This Time Around
7. Gettin' Tigher
8. Smoke On The Water
9. You Keep On Moving

Bis

10. Highway Star
11. Burn



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Entrevista Exclusiva: Biff Byford (Saxon)



O grupo inglês Saxon, um dos mais importante nomes do cenário da New Wave of British Heavy Metal, estará se apresentando no próximo dia 03 de maio, em show exclusivo e único na cidade de São Paulo, promovendo seu mais recente álbum, Thunderbolt. Tive a honra de conversar com o vocalista Biff Byford, que no meio de uma agenda completamente lotada, dedicou um pouco de seu tempo para responder algumas questões sobre o novo álbum e a atual turnê. Confira abaixo o bate-papo, nas versões em português e inglês.

Versão em português

O Saxon está de volta ao Brasil para uma única apresentação em São Paulo. Quais as lembranças que você tem da última passagem da banda por aqui (2013), e o que os fãs podem esperar para este novo show?
Adoramos tocar no Brasil. Temos muitas lembranças de ótimos shows no passado. Maravilhosas pessoas loucas.

Com uma carreira longa, com muitos clássicos, como escolher o set list noite após noite?
Tentamos colocar tantos clássicos quanto possíveis, mas também nos concentramos em Thunderbolt. Teremos 7 novas canções em nossas apresentações como headliner.

Antes do show no Brasil, o Saxon irá fazer uma turnê europeia com Judas Priest e Black Star Riders. Como irão ser estes shows?
Somos convidados do Judas Priest nessa turnê, e em dias alternativos, estaremos tocando como atração principal.
A bela versão DELUXE de Thunderbolt

Vocês estarão em uma turnê Latino-americana, que irá passar por Brasil e México. Quais as principais semelhanças e diferenças entre o público mexicano e brasileiro?
Ambos são muito apaixonados pela música do Saxon. 

No México, o Saxon irá participar em um festival, ao lado de Deep Purple, Ozzy Osbourne, Marilyn Manson, e outros grandes nomes do rock ‘n’ roll. Aqui no Brasill, já temos o anúncio de uma noite do Rock in Rio dedicada para o Heavy Metal. Vocês gostariam de participar desse evento?
Iríamos amar tocar no Rock in Rio. Nunca estivemos lá!

Falando sobre o novo álbum, Thunderbolt, que chegou às lojas em fevereiro, três anos após Battering Ram. Como foi a gravação e quais as principais inspirações para criar o novo material?
O novo álbum entrou nas paradas ao redor do mundo, então, Thunderbolt tornou-se um álbum muito especial para nós, já que as pessoas gostaram muito dele.

Biff e Lemmy, amigos desde 1979

“They Played Rock n Roll”, uma das novas canções, é uma homenagem para Lemmy Kilminster. Para os fãs, a morte de Lemmy foi uma grande perda. Além de fãs, vocês eram amigos dele. Para uma banda tão importante como o Saxon , esta homenagem representa o que, além de gratidão e amizade?
Conheço o Motörhead desde 1979. Eles ajudaram o Saxon muito, quando da nossa primeira apresentação em público. Esta canção é sobre eles e sua música.

Conte-nos sobre as principais lembranças da estrada com o Motörhead, durante a Bomber Tour?
Foi nossa primeira turnê. Eles nos ensinaram tudo o que e como fazer.

Outra canção do novo álbum, a faixa-título, recebeu um clipe com imagens do Saxon ao vivo. Conte-nos sobre a ideia deste vídeo. Ainda, algo muito especial neste vídeo é que existem poucos celulares na audiência, que está lá para curtir a música e a banda. O que você pensa sobre muitos fãs permanecerem gravando ou tirar fotos durante o show, bem como os fãs irem até os hotéis em busca de um autógrafo ou foto com a banda?
Este vídeo é uma compilação de filmagens do Wacken, e da última turnê que o Motörhead fez na Europa. Nós achamos que é legal como nos dias de hoje cada celular se torna uma câmera. Sem problemas com isso.

Vocês também lançarão outro vídeo para esse álbum?
Já temos três vídeos no youtube "PlanetSaxon", e irão existir mais..

, Paul Quinn, Biff Byford e Nigel Glockler
A atual formação do Saxon: Tim “Nibbs” Carter, Paul Quinn, Biff Byford, Doug Scarratt e Nigel Glockler

A atual formação do Saxon é uma das mais estáveis no rock atual. O que você acredita ser a principal causa desse estabilidade na banda?
Somos amigos, e a química entre nós é ótima.

Por favor, envie uma mensagem para os fãs brasileiros. Obrigado por seu tempo e nos vemos em maio.
Obrigado à todos que compraram o novo álbum. Nos veremos em breve. Mantenha a fé.

English version

The English band Saxon, one of the most important names in the New Wave of British Heavy Metal scene, will be performing on May 03, in an exclusive and unique show in São Paulo, promoting their latest album, Thunderbolt. I had the honor of talking to singer Biff Byford, who, in the middle of a busy schedule, took some time to answer some questions about the new album and the current tour. Check out the chat in English (above, in Portugues) versions.

Saxon is back to Brazil for an only presentation in São Paulo. What are the main memories of the last passage for here (2013), and what the fans can expect for this new show?
We love to play in Brazil we have many memories of great shows there in the past crazy wonderful people

With a long career, with many classical songs, how is to choose the set list night by night?
We try to put in as many classic songs as possible but it’s all about thunderbolt so we have 7 new songs in our headline shows.

Before the Brazil show, Saxon will be in a European Tour with Judas Priest and Black Star Riders. How will be these shows? 
We are very special guests on the Judas Priest but we are playing headline shows on day offs

You will be in a Latin American tour, with a leg passing to Brazil and Mexico. What are the main similarities and differences between Mexican and Brazilian audiences?
Both are very passionate about Saxon music

In Mexico, you will participate in a festival, together with Deep Purple, Ozzy Osbourne, Marilyn Manson, and other great rock ‘n’ roll names. Here in Brazil, we have an announcement of one night of Rock in Rio Festival dedicated to Heavy Metal. Would you like to participate in Rock in Rio?
We would love to play on rock in Rio we have never played there.

Talking about the new album, Thunderbolt, which coming at stores in February, three years after Battering Ram. How was the recording and what was the main inspirations to create new material. 
The new album has been in the charts around the world so thunderbolt has become a special album the people love it.


“They Played Rock n Roll”, one of the new songs, is a Lemmy Kilminster tribute. To fans, the Lemmy’s dead was a huge loss. Besides fans, you were Lemmy’s friends. To a band so important like Saxon, this tribute represents what, beyond gratitude and friendship.
I knew Motorhead since 1979 they helped Saxon a lot when we first appeared on the scene and this song is about them and their music.

Tell us the main memories on the road, with Motörhead, in Bomber Tour?
It was our first tour. They taught us how to do it .

Another song of the new album, the title track, has received a clip with images of Saxon caught in the act. Tell us about the idea of this video. And something very special in this video is that are so few mobiles and cell phones in the audience. It is in order to like the songs and the band. What do you think about many fans stay recording or taking pictures during the show, as well as the fans that goes to hotel looking for an autograph or picture with the band?
It’s a compilation of shots from Wacken and the last tour Motörhead did in Europe. We think it’s great that’s how it is these days every phone is a movie camera. No problems


Would you released another video clip from the album?
There are 3 videos on youtube planet Saxon, and there will be more.

The current Saxon line-up is the most lasting in the rock of these days. What do you believe which maintains this stability in the band?
We are friends and the chemistry is great.

Please, send a message to your brazilian fans, thank you for your time and see you in May.
Thanks all who bought the new album we’ll see you soon
Keep the faith
Bx
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